Pausado em Gent, na
Bélgica, estou a ouvir o último CD do
grande Michael Franti com os Spearhead
numa sala aquecida que faz esquecer o
frio que faz lá fora, com uma ajuda
preciosa de um bom tinto. Além do
tinto, só duas coisas me ligam neste
momento à querida «tuga»: uma revista
que comprei no aeroporto e um CD. É
sobre este último que vale a pena falar
um pouco.
O álbum chama-se «Sobre(tudo)» e
pertence a Sam the Kid, um
rapper/produtor de Chelas. The Kid?
Sim, o Sam tem 22 anos, mas no que toca
à sua paixão, no que toca a viver o hip-
hop, a sentir o hip-hop e a fazê-lo
respirar, o Samuel é tudo menos um
puto. Eu que o diga.
Quando o conheci, cerca de 1996/97, já
ele andava bem empenhado a fazer aquilo
que nasceu para fazer: rimas e batidas.
Na altura eu apresentava, em parceria
com o K.J.B.(ex-Black Company), o
programa «Ataque Verbal» na extinta Fm
Radical. Strictly hip-hop. Recebemos
uma maquete que nos deixou com vontade
de saber mais sobre o tal puto de
Chelas. E fomos saber.
Com apenas dezassete anos, o puto Sam
já tinha álbuns «imaginários» na
prateleira, com direito a telediscos
concebidos e gravados pelo próprio, com
pouca ajuda, mas com muita pica. Tudo
feito no seu quarto mágico. Ficámos
impressionados. Quem não ficaria?
Entretanto, muita coisa se passou. A
maior parte dos elementos
do «movimento» da altura dispersou-se,
os contactos foram diminuindo e eu
afastei-me – por motivos pessoais –
quase totalmente do hip-hop que se faz
na «tuga». Em casa e fora dela. Gostei
de ver o que o A.C.(Boss A.C.) e o
Gutto (ex-Black Company) fizeram
através da sua No Stress Records,
nomeadamente da compilação que
lançaram, «T.P.C.».
Há um par de semanas recebi, através da
colaboração que mantenho com a Antena 3
(com a rubrica diária «Mercado Negro»),
o álbum «Sobre(tudo)». Preparava-me
para gravar a semana inteira e já tinha
todos os temas escolhidos, mas bastou-
me picar o Cd durante uns breves
minutos para escolher uma canção e
passá-la para o computador.
Curiosamente, no sábado seguinte, vejo,
ao reler o «Y» do dia anterior, um
artigo sobre o concerto dos ingleses
Braintax, com prestação do DJ Harry
Love e primeira parte assegurada por
Sam the Kid. Se há coisa que concordo
com a inefável Lili Caneças é que
também não acredito em coincidências. O
evento iria decorrer daí a meia-hora,
na galeria Zé dos Bois.
Quarenta minutos depois estava lá.
Depois de um aquecimento eficiente por
Harry Love, Sam subiu ao palco para
apresentar o novo disco. O público
aderiu entusiasticamente a uma boa dose
de excelentes rimas e beats, com
atitude q.b., proporcionadas por Sam e
o seu sidekick G.Q. Depois do seu
concerto, assisti a um par de temas de
Braintax e vim-me embora. Já estava de
barriga cheia e parece que alguém tinha
acabado de «levar uma ratada»...
Desde então «Sobre(tudo)» tem sido
presença habitual no «Mercado Negro».
Porque é o espelho de um rapper que
escreve com uma acutilância e
sensibilidade incríveis, lado a lado
com instrumentais requintados. E numa
altura em que muito hip-hop vive
de «show off» é reconfortante ouvir
alguém dizer coisas como: «não quero,
nem tenho a fama de garanhão/ furar
damas sem ter o mínimo de atracção/
foda-se parece que é obrigação/ tipo
uma competição, tipo bifas no Verão
(...) beleza interior/ com sabor a
espontaneidade/ que se torna muito
superior/ ao reflexo de um vidro que
reflecte uma fase/ expressões atraentes
de uma mente com classe» (em «B.I.»).
«A cota Isabel manda B.I.», diz o
Samuel. Sabes o que nós dizemos, puto?
Tu também mandas. Tu também...
«Sobre(tudo)», edição independente com
distribuição e promoção asseguradas
pela Edel encontra-se à venda em várias
discotecas, mas apanham-na de certeza
na KingSize.
** Puto Pac é vocalista dos Da
Weasel e responsável pela rubrica
diária «Mercado Negro» na Antena 3.
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09-02-2002