Um amigo meu dizia que a «maior» banda de rock´n´roll do mundo eram os Led Zeppelin, mas que a «melhor» eram os Rolling Stones. Para mim, neste momento os «maiores» e os «melhores» são os Red Hot Chili Peppers.
«Neste momento» porque as bandas são como as equipas de futebol: atravessam momentos de boa e má forma. Não gosto de rótulos. E os Red Hot são grandes demais para caberem em definições estilísticas. Encarnam na perfeição o que considero ser o verdadeiro espírito do rock´n´roll, mesmo quando tocam o funk mais «Funkadelic/Parliament» que se possa imaginar.
Esse espírito é uma coisa que não dá para fingir, por mais guitarras que se partam em palco ou histórias que se inventem à volta das bandas. Nasce-se com ela e ainda não a vi à venda em lado nenhum. É uma energia que por vezes demora um certo tempo a revelar-se na sua forma mais pura, porque simplesmente não se sabe o que fazer com ela.
Às vezes é preciso, no entanto, uma «ajudazinha». No caso dos Red Hot Chili Peppers, o produtor Rick Rubin foi fundamental. Rick Rubin sabe reconhecer essa energia em estado bruto e raramente se engana nas bandas em que aposta. O caso mais flagrante será o dos Cult, que andavam perdidos com o seu primeiro disco em cenários meio góticos até encontrarem o homem das barbas gigantes. Dizem que R.R. se virou para o guitarrista e lhe «mandou» cortar o cabelo e comprar uma Gibson Les Paul. Histórias? Não se sabe.
Sabe-se, com todas as certezas possíveis nestas coisas de gostos, que o álbum que com ele gravaram - «Electric» - é um dos melhores de sempre na história do rock´n´roll recente. Foda-se! Só dá vontade de estar na auto-estrada a 300 à hora, com alto mulherão ao lado quando o ouvimos... Básico? Pois, «it´s only rock´n´roll...»
O caso dos Red Hot foi algo diferente. Tiveram como produtor George Clinton, que soube explorar todo o seu feeling punk-funk. Editaram vários álbuns. Todos com momentos de música brilhantes. «Fizeram estrada» e fartaram-se de dar nas vistas – quem não se lembra da cena «cocks on socks»? – e tiveram histórias recorrentes com o uso de drogas pesadas, sendo o mais marcante a morte por overdose do guitarrista Hillel Slovak.
A banda possuía todo o espírito rock, sim senhor, mas faltava qualquer coisa. Faltava filtrar aquela energia toda e canalizá-la na direcção certa. Foi o que aconteceu quando encontraram a pessoa certa no momento certo e gravaram «Blood Sugar Sex Magik», o álbum das suas vidas.
Despiram-se de tudo o que estava a mais e mostraram-se ao mundo na sua forma mais pura. Não é à toa que quase todas as fotos de Bruce Weber para o álbum mostram os músicos de tronco nu. Simplificaram a sua sonoridade e o resultado ficou para a história.
Depois da saída de Frusciante editaram «One Hot Minute», mas só em «Californication», com o retorno do guitarrista à família, conseguiram recuperar um pouco da mística alcançada no «Blood, Sugar...». Falo agora dos Red Hot porque comprei o DVD «Off the Map».
O disco contém material recolhido na última digressão – a de «Californication», a qual passou por Portugal. E o que podemos ver no concerto é o tal espírito de que tanto se falou. A vibração em cima do palco é tremenda, mas, acima de tudo, descontraída. John Frusciante é um excelente guitarrista, mas toca como se não tivesse consciência disso, seguindo o feeling do momento. Ao mesmo tempo que Anthony, não sendo um vocalista por excelência também não se dá conta disso e permite-se a todos os desvarios possíveis sem se preocupar muito com isso.
Temos então momentos de puro génio que contrastam com notas ao lado (mesmo «a máquina» Flea dá pregos) e «desafinanços» incríveis e tiradas desmarcadas que contrastam com momentos de poesia em estado bruto. Tudo misturado num groove contagiante que não deixa ninguém indiferente à música dos Red Hot Chili Peppers.
Porque a música é assim. Não tem de ser perfeita. Tem, isso sim, de ser sentida. E os Red Hot possuem um feeling para sentir as coisas e a boa música que fazem e partilhá-lo com os outros que não é brincadeira.
Não se aconselha, por isso, este DVD a perfeccionistas. É muito rock´n´roll... E se quiserem saber mais, há que experimentá-lo. Certas coisas mais valem ficar por dizer. Às vezes não há palavras para as definir como merecem. Eu amei. E acho que este ano, pela segunda vez, vou fazer um moicano...
** Puto Pac é vocalista dos Da Weasel e responsável pela rubrica diária «Mercado Negro» na Antena 3.
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08-04-2002