ANTONIOLOGIAS

Autor:
António

Email:
amaralme@sapo.pt

18-10-2004 23:16:00
Obrigado DD!
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em Março de 2003, surgiu aqui no espaço o meu e-diário do Diário Digital, o Antoniologias, um weblog num mar bordeau, onde teu sangue e a poesia se confundiram durante meses… agora, no blogger, na negritude da cicatriz sanguínea, prossegues a "Antoniologia Poética"… ao já velhinho DD (Diário Digital) o teu obrigado pelo espaço concedido durante todo este tempo…


25-07-2004 23:52:00
SE OS BEIJOS FOSSEM GÔNDOLAS
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se os beijos fossem gôndolas,
em girândolas de carinhos
e o amor, tômbolas da sorte
de te conhecer,
e entre meu e teu coração,
o macio pêndulo de mágicas horas…


p.l., 24.07.04




:: poster. Gondolas in Venice (Claude Monet)


12-07-2004 0:40:00
pequenina (de Antero de Quental)
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Eu bem sei que te chamam pequenina
É ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais , nos vestidos , que a menina...
Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...

Mas, filha, lá nos montes onde andei
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos.




21-03-2004 0:49:00
D.
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Esta noite,
Ao saíres de tua caverna,
Estarei lá,
Em tua espera...
Esta noite,
Ao ventar no escuro
Ficarei à tua espera...
Morderei minha carne
Meus pulmões se apertarão
A alma se gelará,
Em espera do brilho de teus olhos...



Esta noite esperarei por ti,
Junto de tua cerrada caverna;
Ouvirei os murmúrios nocturnos,
Teus risos, suspiros de confusa insignificância...
Meus pés cimentarão em tua entrada,
No meio de teu jardim de açucenas caladas,
Corujas serão rouxinóis
Os lobos uivarão sempre a mesma música...
Esta noite,
Os fantasmas seremos nós,
Silêncios serão feridos,
Pelas lâminas de nossas línguas;
As pedras acordarão,
Os morcegos nos observarão,
Perdidos nos vazios que nos circundam...
Esta noite,
Nossas duas estátuas,
Morrerão...

.
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.


05-02-2004 0:02:00
C.
.
.
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!




Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

“Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...




::Florbela Espanca


31-01-2004 0:17:00
B.






New Page 1




Era
uma montanha enorme de terra, lama negra.


Um
pico no topo, de tempestade e árduo de atingir. Dum lado, o mar fundo e
agreste; do outro, um jardim cinzento e silencioso de epitáfios, onde se
enfureciam no ar, as lanças ferrugentas dos crucifixos.


E
era um trepar escorregadio, em suor e ofegar; o sujo e trapos e, o medo, que me
rasgava...


E,
enfim, o topo, saltado num segundo, pela encosta abissal, até uma planície de
sol e verde.


E
eram dois braços de açucena,


me
abraçando...


(Ponte de Lima,
21.01.04)







20-01-2004 23:41:00
A BARCA MAIS BELA

O solitário pintor,
Monta seu atelier no beco...
Ora servo de Deus,
Ora fugitivo, desertor,
Ergue o olhar peco
Aos mundos ateus;
Velhos pincéis de dor
Choram no papel seco,
Estéreis sonhos seus,
E negra é a cor
Do próprio sangue – aguarela;
Só vê morte esse pintor,
Sua bruxa, sua Cinderela;
Mas chega ao céu o corredor,
Onde viaja na barca mais bela.

(braga, 02.11.94)

:: poster – Phuket, Hugh Sitton


17-01-2004 0:25:00
A.


Já o cintilar dos
címbalos nórdicos se apaga ao te dizer,


Face de açucena,
teus meus olhos d’água,


Que o manso piar
das aves-do-paraíso,


Ultrapasteurizam-me
as réstias de juízo,


Inerte onda, serena
e salgada


Dos mares do Norte,
em neve e branco.


As palavras com
significado,


Tornam-se um lá-lá-lá
melódico,


Pois tua minha boca
frágua


São o paraíso e,
o meu juízo, as serenas aves


Sobre as ondas
salgadas.


E tu és açucenas
brancas, neve cintilante


A água de meus
olhos


E a mansidão dos címbalos
nórdicos


E, a mansidão dos
címbalos nórdicos...


(Ponte Lima, 13.01.04)





09-01-2004 0:13:00
GOTEJO ÓRFÃO
.
.
As pequeninas
Gotas de chuva.
Olham-me,
Grudadas à janela,
No manso estio...
Lá fora,
Cá dentro,
Tirano é o frio,
Sem compaixão...
E abrindo
Nos olhos, a janela,
Abraço o chuvoso
Gotejo órfão...

(braga, 29.01.95)



::painel: Season of Peace, Bill Breedan


07-01-2004 23:49:00
RUGAS
.
.
Vales e vales cavados,
Entre infinitas montanhas;
Moram ali desenhados,
Perdidos e tão aprofundados,
Quando ris sem acanhas.

Longos traços, caminhos sem final;
São sinuosos passos reflectidos em ti,
As rugas; agora juízas em tribunal,
Julgam-te réu, pelo bem, pelo mal...
Rugas, esquecidas, ao longe... E sempre aqui!

Tua fronte, espelho lapidado,
A cine-fita de todo um passado;
Brotam imagens dos sulcos profundos,
Silhuetas, caras doutros mundos...

Tua carne, cimento amassado
Em rios de suor nauseabundos;
Ergue-se o monumento encarquilhado
Na tez, sobre alicerces bem fundos.

(braga, 27.04.95)



::poster: Sierra Nevada, Albert Bierstadt


06-01-2004 23:08:00
O MEU JARDIM ENCANTADO E PERDIDO
.
.
O meu jardim encantado e perdido;
Que lindo ele é!...
No coração da floresta imensa,
Cerrado por mil fechaduras,
Envolto em densa teia d’arbustos,
Que cortam a pele, levemente...
O meu jardim meu,
Plácido e sereno,
Tem uma fonte de sonhos embalados,
Flores d’azul d’água;
Árvores altíssimas, vastas copas
De vermelho pomo maduro...
Há um lago fundo e frio,
Com Santos roxos em pedra,
Chovendo pela boca, olhos e ouvidos.
Tem caminhos e mais caminhos,
Com muitos princípios,
Mas sem fins...
Esvoaçam, lá por cima,
Passaritos que espenicam o silêncio
E mergulham entre a folhagem escarlate;
Ciganas bailando Sevilhanas,
Nos rodopios das brisas...
Ao fim da tarde,
Soa da alma,
Duma moita de plantas,
Com botões florais violeta – escuros,
A doce voz
De uma pequenina fada, que canta...
Sei que é pequenina,
E fada,
Mas nunca a vi...

(braga, 18.04.96)



:: poster: Path to Willow Park - T.C. Chiu


29-12-2003 1:02:00
O DUELO DE UMA COLHER E UMA XÍCARA
.
.
imagino,
agora,
o duelo de uma colher e uma xícara,
na mesa daquele café,
por teus lábios...

ambas,
em tua boca e
eu,
pires,
aqui,
só,

neste tampo de frio vidro...




16-12-2003 23:41:00
ENVOI (de EZRA POUND)

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Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.





:: tradução de Augusto de Campos
:: The Tango, Richard Zolan


16-12-2003 0:27:00
SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA (HERBERTO HÉLDER)
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Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.



:: The Kiss, Gustav Klimt


10-12-2003 0:10:00
Há cidades cor de pérola onde as mulheres (Herberto Hélder)
.
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Há cidades cor de pérola onde as mulheres existem velozmente. Onde às vezes param, e são morosas por dentro. Há cidades absolutas,trabalhadas interiormente pelo pensamento das mulheres. Lugares límpidos e depois nocturnos,vistos ao alto como um fogo antigo,ou como um fogo juvenil. Vistos fixamente abaixados nas águas celestes. Há lugares de um esplendor virgem,com mulheres puras cujas mãos estremecem. Mulheres que imaginam num supremo silêncio, elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior. Há cidades esquecidas pelas semanas fora. Emoções onde vivo sem orelhas nem dedos. Onde consumo uma amizade bárbara. Um amor levitante. Zona que se refere aos meus dons desconhecidos. Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores. Para que algumas mulheres sejam cândidas. Para que alguém bata em mim no alto da noite e me diga o terror de semanas desaparecidas. Eu durmo no ar dessas cidades femininas cujos espinhos e sangues me inspiram o fundo da vida. Nelas queimo o mês que me pertence (...) o minha loucura, escada sobre escada. mulheres que eu amo com um desespero fulminante, a quem beijo os pés supostos entre pensamento e movimento. Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria. Em que toco levemente Imente a boca brutal. Há mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço, dentro de ténues pérolas. Que racham a luz de alto a baixo e criam uma insondável ilusão. Dentro de minha idade, desde a treva, de crime em crime - espero a felicidade de loucas delicadas mulheres. Uma cidade voltada para dentro do génio, aberta como uma boca em cima do som. Com estrelas secas. Parada. Subo as mulheres aos degraus. Seus pedregulhos perante Deus. É a vida futura tocando o sangue de um amargo delírio. Olho de cima a beleza genial de sua cabeça ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se no meu pensamento quente.



(poster de marc chagall)


27-11-2003 13:02:00
O MUNDO É GRANDE (de Drummond de Andrade)
.
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O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.



:: fotografia - Robert Doisneau, Baiser rue Mazarine


20-11-2003 9:40:00
O BARCO BÊBADO (de Arthur Rimbaud)
...
...
Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.


20-11-2003 0:09:00
CÂNTICO GREGORIANO
.
.
Blllaaarrrggghhh...
Uuuaaarrr!!!
Cospf! Cospf! Rrraaassspttt!!!
Valha-te São Gregório!
Valha-te São Gregório!

(...e lá vem outra vezzz!...)
Guuurrrptttfff...
Rooouuurrrggghhh!!!
Purgatório!
Purgatório!
Rrrraaarrrggg!!!
Caaasssprrr!!!
Não precisas de sanitário,
Precisas de sanatório!
Uuuiiirrrggghhh!!!
Cospf! Cospf!
Ponham-lhe o supositório!
Ponham-lhe o supositório!
... e os sapatos, impávidos, salpicados...
... e o chão, e a torrente, o odor nauseabundo...
São Gregório,
São Gregório!...
Água, macia,
Dessangria,
Nunca mais
Cervejório...


13-11-2003 22:02:00
UM GRITO. UM PIO.


a lâmina,
fina e fria,
espeta o comprimento,
fundo, na alegria...
o corpo dormente;
o golpe que mina,
a vida, num fio;
um grito. um pio.



ponte de lima, 09 Fevereiro de 1997


12-11-2003 11:24:00
::...APONTAMENTOS...::
.
.
dia chuvoso...
as águas deslizam escangalhadas pelo rio,
areias e margens são afogadas...

- - - - -

julgo me esquecer d’alguma coisa – de muitas coisas;
pensamentos separam-se, escangalhados,
afogam-se em névoas e escuridão...

- - - - -




andorinhas de asas brancas, não vão a Timor;
só as cangalheiras de asas negras o fazem,
e lá vivem escangalhadas por arrozais de sangue,
afogadas em mares de esquecimentos...

- - - - -

altos caudais mássicos de fluidos ideais
deambulam em minha direcção;
meu sistema sem grande entropia, espera por suas palavras
e afogado em processos cíclicos sem nada de novo,
escangalha-se sem libertação de energia, sob a forma de trabalho ou calor...



ponte de lima, 14 de abril de 1993


24-10-2003 15:49:00
[...a quem eu gosto, e que a todos confesso...]









1.Row of Red Amaryllis, Cheri Blum
2. Red Poppy, Georgia O’Keeffe
3. Lilacs And Copper (foil embossed), Jan Kooistra
4. Water Lilies, 1916, Claude Monet
5. Meadow Dance, Shirley Novak
6. Sunflowers
7. Roses to Remember, Barbara Mock


21-10-2003 11:33:00
ESTOU ESCONDIDO NA COR AMARGA DO FIM DA TARDE (do Valter Hugo Mãe)




estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao relento




17-10-2003 0:42:00
"AQUELA ÂNFORA, GUARDA O LÍQUIDO DOS GRANDES..."
.
.
disseram-te um dia,
em toda aquela imensidão de luz rebentante,
ali mesmo ao lado,
da vasta avenida de beleza e rodopio:
“naquele frasco,
está a essência...”
era um velho engravatado
que dizia anedotas;
depois todos outros,
esticando o pescoço e arregalando os olhos e,
mais tarde,
a formosa e dura,
virginal gorduchinha:
“aquela ânfora,
guarda o líquido dos grandes...”
e
cada dia,
as mãos erguidas,
teus dedos pianando no ar;
cada dia, mais tremias,
enrubescido de abanares
o jarrão dos sublimes...
e nada vias,
naquele pequeno tão pesado,
repleto e sem fundo
vaso de negro dourado;
disseram-te um dia
que quem dali bebesse,
oh!...quem dali bebesse, seria...


e abriste os lábios,
goela em goela tão abissal,
e o líquido escorrente,
e a cirrose esquelética,
roupa negra, cachimbo e papel
mais papel,
em mundo fechado e alternativo,
e entornado em ti,
o vaso fendido,
vertendo sempre
aquele licor contínuo, abundante;
o suco,
venenoso,
doce,
que te adormece e
te desfaz...
...
a poética.


03-10-2003 0:27:00
DESCAPOTÁVEL (...QUERO O MEU AMOR...)
.
.
Quero estropiar o nosso amor
Cortar-lhe as asas
Vazar-lhe os olhos
Trilhar-lhe os dedos
E gemer...
Quero meu amor, experimentar,
Espremer-lhe espinhas
Embriagá-lo
Desinfectá-lo
E dormir...
Quero o meu amor descapotável
Furar-lhe os tímpanos
Cortar-lhe as veias
Amordaçá-lo
Pisar-lhe os calos
Arranhá-lo...

Quero estropiar o nosso amor
Cortar-lhe as asas




Vazar-lhe os olhos
Trilhar-lhe os dedos
E gemer...
Quero o meu amor descapotável
Furar-lhe os tímpanos
Cortar-lhe as veias
Amordaçá-lo
Pisar-lhe os calos
Arranhá-lo...
Quero o meu amor descapotável
Furar-lhe os tímpanos
Cortar-lhe as veias
Amordaçá-lo
Puxar-lhe os pelos
Arranhá-lo...

o meu amor cabe na cova que lhe abri
o meu amor cabe na cova de um dente
o meu amor cabe na cova que lhe abri
o meu amor cabe na cova de um dente
o meu amor cabe na cova que lhe abri...



::LETRA: Regina Guimarães (Três Tristes Tigres)

::POSTER:Earth Angel, Josephine Wall


12-09-2003 0:22:00
AMO A RECORDAÇÃO DAQUELES TEMPOS NUS (DE BAUDELAIRE)
.
.
Amo a recordação daqueles tempos nus
Quando Febo esculpia as estátuas na luz.
Ligeiros, Macho e fêmea, fiéis ao som da lira,
Ali brincavam sem angústia e sem mentira,
E, sob o meigo céu que lhes dourava a espinha,
Exibiam a origem de uma nobre linha.
Cibele , então fecunda em frutos generosos,
Nos filhos seus não via encargos onerosos:
Qual loba fértil em anónimas ternuras,
Aleitava o universo com as tetas duras.
Robusto e esbelto, tinha o homem por sua lei
Gabar-se das belezas que o sagravam rei,
Sementes puras e ainda virgens de feridas,
Cuja macia tez convidava às mordidas!



Quando se empenha o Poeta em conceber agora
Essas grandezas raras que ardiam outrora,
No palco em que a nudez humana luz sem brio
Sente ele n'alma um tenebroso calafrio
Ante esse horrendo quadro de bestiais ultrajes.
Ó quanto monstro a deplorar os próprios trajes!
Ó troncos cómicos, figuras de espantalhos!
Ó corpos magros, flácidos, inflados, falhos,
Que o deus utilitário, frio e sem cansaço,
Desde a infância cingiu em suas gases de aço!
E vós, mulheres, mais seráficas que os círios,
Que a orgia ceva e rói, vós, virgens como lírios,
Que herdaram de Eva o vício da perpetuidade
E todos os horrores da fecundidade!


Possuímos, é verdade, impérios corrompidos,
Com velhos povos de esplendores esquecidos:
Semblantes roídos pelos cancros da emoção,
E por assim dizer belezas de evasão;
Tais inventos, porém, das musas mais tardias
Jamais impedirão que as gerações doentias
Rendam à juventude uma homenagem grave
- À juventude, de ar singelo e fronte suave,
De olhar translúcido como água de corrente,
E que se entorna sobre tudo, negligente,
Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores,
Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores.

::Adam and Eve, Albrecht Dürer, 1507


11-09-2003 0:06:00

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O FUÍNHA DE TBILISI


Aqui, em Tbilisi, o bocejo é Rei...

Os grandes poetas georgianos rimavam-no com beijo e percevejo mas,
mais que tudo, bocejo é uma boca escancarada a mosquito, de “taxas” arreganhadas,
coloridas por pinceladas de preguiçoso abandono e esquecimento premeditado.
Recordo as palavras de meu camarada Baltacha, há dias, na taberna da basílica de Anchyskhati,
entre lentos tragos de vodka:

amigo G.W.G., por muita água que caia no Kura, a urgência de chegar ao mar será sempre a mesma; pelo que a inundação e cheia (e todos cataclismos) não são mais que manifestações de abandono, esquecimento e preguiça bocejante...


#George W. Georgiano, Tbilisi, 10 de Setembro de 2003

::Anchyskhati Basilica. General view. End of 1890s.



::Nekrasov street, 1883-1885


09-09-2003 0:41:00
DREAMS ARE LIKE WATER (THIS MORTAL COIL, 1991)
.


the air was blue, you could hold it in your hand, blue
remember me, I once told you and I tried to
(...) to realise that nothing lasts forever
(...) in heart, you'll always be a child

we cried as we kissed - it was too new
we died and we lived - it was too new
too strong still too much

when you were a child unhappiness took the place of dreams
dreams are like water, colourless and dangerous
without the strength to love, way beyond fear
you could care less if you could care at all

we cried as we kissed - it was too new
we died and we lived - it was too new
too strong still too much



:: fotografia de Imogen Cunningham, The Dream, 1910


04-09-2003 23:42:00
O MEU SER QUE NÃO É EM MIM
.
.
O meu ser que não é em mim
Mas no sorriso que te dou
No canto que entoas
No brilho de teus olhos
No pulsar que seguras;
Não sou fechado e preso em mim
Mas espraiado na tua alma,
Na tua pronúncia de meu nome
Na tua aproximação e olhar...




Serei se me amares,
Serei se me odiares,
Serei, nos vagidos de nosso neném,
Serei, na agonia e pragas de teu choro;
Que não me mate o esquecimento,
Que não me mate a timidez e o medo;
Serei, se me concederes um espaço em ti e,
Como procuro ser;
Procuro, sempre, querer-te.
Procuro ser, amando-te.



:: o título do poster, “Blue Lovers”


25-08-2003 14:16:00
A UNA DAMA MUY BLANCA, VESTIDA DE VERDE (AINDA GÓNGORA...)
.
.
Cisne gentil, después que crespo el vado
dejó, y de espuma la agua encanecida,
que al rubio sol la pluma humedecida
sacude de las juncias abrigado,

copos de blanca nieve en verde prado,
azucena entre murtas escondida,
cuajada leche en juncos exprimida,
diamante entre esmeraldas engastado,

no tienen que preciarse de blancura
después que nos mostró su airoso brío
la blanca Leda en verde vestidura.

Fué tal, que templó su aire el fuego mío,
y dió, con su vestido y su hermosura,
verdor al campo, claridad al río.




:: Garden of Earthly Delights, Bosch, Hieronymus, 1504


22-08-2003 1:35:00
A FORTUNA ...(DE DON LUIS DE GÓNGORA)
.

Da bienes Fortuna
que no esta'n escritos:
Cuando pitos flautas,
cuando flautas pitos.
Cua'n diversas sendas
se suelen seguir
en el repartir
honras y haciendas!
A unos da encomiendas,
a otros sambenitos.
Cuando pitos flautas,
cuando flautas pitos.
A veces despoja
de choza y apero
al mayor cabrero;
y a quien se le antoja
la cabra ma's coja
pare dos cabritos.
Cuando pitos flautas,
cuando flautas pitos.
En gustos de amores
suele traer bonanza
y en breve mudanza
los vuelve en dolores.
No da a uno favores,
y a otro infinitos.
Cuando pitos flautas,
cuando flautas pitos.
Orque en una aldea
un pobre mancebo
hurto' so'lo un huevo,
al sol bambolea;
y otro se pasea
con cien mil delitos.
Cuando pitos flautas,
cuando flautas pitos.


:: extraído de “Letrillas”, Don Luis De Góngora, 1581


22-08-2003 0:55:00
BAIRRO
.
.
III. TARDE CINZENTA


Telhados negros
Sobre a pele branca
Do casario;
Janelas,
Buracos de bala
Vislumbrando
Pulmões poluídos;
As crianças vomitadas
P’las gargantas das portas
Escancaradas;
Esterco de ruídos,
Silhuetas,



Pensamentos perdidos...
Tarde cinzenta,
Alcatrão negro,
Telhados negros...





***** ***** *****





IV. MUNDO Á PARTE


O bairro cigano,
Rosto branco sujo
Coberto p’lo pano
Dos estendais dançantes;
Ladra confuso o sabujo
Ás portas dos prédios,
Abertas, prostrantes;
Os putos sebentos;
Vestidos negros, assédios
Ao corpo dos pensamentos,
Quando beijados
P’la pele das moças;
Passos eriçados,



Flor selvagem...
Inchada de forças,
Berra a velha cigana,
Entre a miudagem:
“P´ra dentro nino!”
“Anda cá Nana!”
Como fim d’ino,
O ruído sana...





***** ***** *****





V. CÃES DE BAIRRO


Ladram,
Trovejam,
Os cães danados
Na noite.
São muitos
E são grandes.
Correm,
Discutem,
Os cães enraivecidos
Por toda a rua.
E de súbito,



Quebra-se a algazarra:
Dispersos latidos,
Soam
Das janelas do longe...
...
“Au! Au!...”
...
“Au!...”



1. sara9, Sarah Crow, 19/10/2002
2. cigana Princesa, Sarah Crow, 17/6/2002
3. B.A.1941, Nicholas, 24/12/2002.


06-08-2003 10:01:00
BAIRRO
.
.
II.FIM DE TARDE


Ao cair do negro nocturno,
Sobre o bairro sujo,
Ladram os cães em algazarra,
Murmuram os velhos em cansaço...
E vem da varanda mais ao fundo,
Numa rua esquecida,
A dança infinita de sons,
Brotando tuberculosa da flauta,
Sobre os beiços do rapaz cigano.





06-08-2003 9:59:00
CHORO
.
.


Um barulho seco, parece que vindo de dentro da terra, aumenta assustadoramente. E o céu há muito deixou de ser azul. Em Lagoa Fundeira, Vila de Rei, o fogo avança determinado a deitar por terra casas, palheiros e tudo o mais que se cruzar no seu caminho. Gritos de desespero juntam-se ao roncar monótono do lume, enquanto se tenta salvar as casas, que os campos, esses, há muito arderam.
Maria Antunes recusa-se a abandonar as cabras. Berra que não as deixa, que não sai dali. Um vizinho acompanha-a na determinação. Perante o lume que avança sobre a sua casa, encosta-se a um dos pilares da casa em frente. Esquece a mangueira que durante horas
debitou a possível água em redor e conforma-se perante o avanço das chamas. Desiste, assistindo à tomada dos seus haveres...





# extractos do Jornal Notícias

++++++++++++++++++++++++


“apenas a ideia de saber que irei estar novamente em teus braços, me faz suportar a imensa saudade, o calor, o cansaço e a frustração perante um mundo que arde aqui ao lado...”


#Pampilhosa da Serra, 02.08.2003, 04:27 a.m.


01-08-2003 1:23:00
BAIRRO
.
.
I. DEUSAS

Deusas perdidas de vestidos negros
Colam-se-me na janela – meus olhos;
Seus olhos fogo, o picar de abrolhos;
Caminham as ciganas em vento, segredos
Na alma, no corpo, roupas e folhos...

Agarram elásticos os cabelos molhados,
Agarram lânguidos dedos as saias compridas,
Sorriem calcanhares, tornozelos, as pernas erguidas
Nos saltos sapatos e pó levantados
P’lo andar das belas ciganas foragidas.



“Angelleta, vem cá! Angelleta!...”
Berram das varandas, da valeta
Inchados peitos, toando até meus ouvidos;
“Angelleta!” – assolam-me assim os gritos perdidos...

E, na suja rua, em traje violeta,
Deslizante serpente p’los meus olhos feridos,
Surge a moça cigana, intocável estatueta,
Olhada à distância, p’ra lá dos vidros.




#. cigana Lorena, por Sarah Corvo em 23/6/2002


31-07-2003 18:36:00
O BAIRRO ERA SUJO E FÉTIDO, OS CACHORROS E AS CRIANÇAS SEMEAVAM A DEMOCRACIA, ENQUANTO MEU CAPITALISMO ERA MORDIDO POR ANGELLETA
.
.
.

I.




II.




III.




IV.




V.





1.wall04,Sarah Crow em 19/10/2002
2.gipsy, Sarah Crow em 8/6/2002
3.cigana Sarah, Sarah Crow em 9/6/2002
4.cigana, Sarah Corvo em 29/6/2002
5.Gipsy2, Sarah Corvo em 30/6/2002


30-07-2003 1:28:00
O TEU BEIJO PEQUENINO


O
teu beijo pequenino,


Gatinhante
em meus lábios,


Levezinho
vapor quente,


Soprado
de tua boca carmim,


Carnuda
caldeira, perfumes de jasmim...


 


O
teu beijo catraio,


Inquieto
em teus beiços


De
mansinho para os meus,


Cola-o
com saliva fria,


Manieta-o,
enrosca-mo nas gengivas,


Como
os vinícolas pâmpanos de Maio...


 


O
teu beijo sereno,


Mendigo
sorridente,


Deslizante
em tua língua


E
minha boca dormente;


O
teu beijo pequeno,


Sempre
e sempre...



 





29-07-2003 9:44:00
DA ORDEM NATURAL DOS PENSAMENTOS
.
.
Da ordem natural dos pensamentos,
Da austeridade da postura sócio – cultural,
Do pitagórico nó da gravata,
Dos sisudos vincos das calças de poliéster,
Do sorvo estudado da cigarreta,
Das dioptrias do olhar sob-pestanal,
Da alvura das mãos e unhas de senhorito,
Do entrecruzar pausado das pernas,
Da reserva da mesa solene do solar,
Da vacuidade do aperto de mão,
Do verticalismo sincronizado do andar,
Do lustre dos sapatos do grupo de ilustres,
Dos Rolex e Armani vestidos,
Do verbalismo da frase inflamada,
Protuberam dois mamilos doridos,


Escancara-se uma vagina suada.


24-07-2003 0:15:00
O SOTÃO DE TEU SER
.
.
Abertura,
Iluminar uma alma escura,
Onde tudo se perde,
Se esquece...
Desferrolhar,
A velha porta que estremece;
Ar frio,
Teias e aranhas a baloiçar


Sobre o palpitar coronário...
Aí dentro cheira a bafio,
O trigo, nas searas, não cresce,
Só o pó do antiquário;
Mas também há fios de luar,
Carinhos e sorrisos de cachorrinhos,
Mares imensos e montanhas ao céu;
Existem, ainda, jardins a cintilar,
Onde um mundo se embevece,
Sons de violinos, pianos e passarinhos,
Sonhos lindos, princesas de véu...
Estão aí tantas coisas,
Dentro de caixotes, em armário,
Fechados, esquecidos, a apertar;
És arquivo de loisas,
Sem uso, por dar,
E esta vida ao léu
Por vestir, por viver;
Armazém de caixotes em desalinhos,
Tudo a embaraçar;
E, quando um dia tudo morrer,
Por não dares,
Tudo haverás a perder...


18-07-2003 17:11:00
LÍQUIDO AMNIÓTICO
.
.
faço da liberdade o meu líquido amniótico e em ti, abrigo minha natação


se me faltas...
bolsa que se rebenta,
enquisto e asfixio...caído no chão


17-07-2003 11:02:00
TELHADOS
.
.
Os telhados fazem-me pasmar;
Rasgados nas alturas
Como lâminas de navalhas,
Cortam o ar,
Repleto de agruras,
Chora a água do mar,
Respinchante pelas calhas,
Varandas dos telhados
Molhados e frios,
Eriçam-se no ar,
Padecendo parados,
Enquanto águas caem nos rios...



Os telhados fazem-me pasmar;
De chaminés espetadas,
Fumegam a tarde inteira,
Fumo teimoso em dissipar;
Mais parece deambulante trem de vapor,
Por estradas de telhas musgadas
Estendidas em horizonte sem fronteira,
Onde pombos e cegonhas vêm pôr
Humildes moradias de fenos,
Junto a antenas e cata – ventos.



Os telhados fazem-me pasmar;
Perdidos no ar,
Observam serenos
Toda a aldeia,
De caminhos de pó
E campos de fenos;
Mais parece verde teia,
Furada só,
Por telhados de vermelho doentio,
Onde fixo meu olhar
E não paro de pasmar,
Horas e horas a fio.


::fotografias: panorâmicas de Ouro Preto


17-07-2003 0:25:00
Um Pecado Maior
.
.
a blogosfera renova-se continuamente e será sempre um prazer, em espaços como este "Um Pecado Maior".

chegou ontem ao “o meu E-diário”.


16-07-2003 10:56:00
AS PEDRAS
.
.
As pedras...

Da montanha enorme,
Velam os cordeiros
Do pastor, que dorme.
As pedras...
Dos moinhos a águas,
Cantam aos moleiros
Suas velhas mágoas.

As pedras...
Da calçada esquecida,
Gemem em amargura
A existência descolorida.
As pedras...
Do secular jazigo,
Calam a lágrima mais pura
Do pecador em castigo.

As pedras...
Da mesa, no jardim,
Sorriem p’ró ar
O perfume do jasmim.
As pedras...
Da imponente catedral,
Ao céu vêm bradar
A sinfonia intemporal.

As pedras...
Da escura cela,
Cegam-se no esterco
Que rodeia a donzela.
As pedras...
Onde soa a cascata;
Violinos em que me perco,
Beijos húmidos da mata.



:: fotografia Eadweard Muybridge, Volcano Quetzeltenango, Guatemala, 1875


11-07-2003 13:08:00
VAI e VEM
.


Se Pessoa rebentou e se propagou até onde a Loucura é o Limite...





João César Monteiro torturou a loucura e o limite, até estes berrarem um “ensurdecedormente” ignorado Para!... e, relampejar, cravado nas costas de João Vuvu, um ferrugento punhal mudo...


11-07-2003 11:53:00
Contidos Sentidos
.


toda a minha vasta e asfixiante incompreensão





todos os lábios inflamados se expurgam, no fim, em vento...oh, como dói o Limite, o roçar de 2 caveiras, carbonos e hidrogénios dissolventes em brancas velas dos veleiros do amanhã...





Arriscar?!...





a cadeira, de anel de rubis, de massiva barba encanecida e papo de barão é quem mais ordena:
- Senta!






a importância da migalha de pão, da beata colhida da rua e fumada em sofreguidão, das calças em fios e sem joelheiras, os nodosos dedos atacados de escuriose pelos rombos das botas, toda a miséria que se contorce...





construídos por negritude, dentro de um ser de sombras





ponto inicial. ponto final.



1. Bill Brandt, Window in Osborn Street, 1931-35
2. Bill Brandt, At Charlie Brown's, c. 1936
3. E. J. Bellocq, Untitled, c. 1912
4. E. J. Bellocq, Untitled, c. 1912
5. Brassai (Gyula Halasz), "Bijou" of the Montmartre cabarets, From "Paris by Night", 1933
6.Harry Callahan, Eleanor and Barbara, Chicago, 1953
7.Harry Callahan, Chicago, 1950



07-07-2003 17:24:00
The Lake (alan poe)
.

In youth's spring, it was my lot
To haunt of the wide earth a spot
The which I could not love the less;
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound.
And the tall pines that tower'd around.
But when the night had thrown her pall
Upon that spot — as upon all,
And the wind would pass me by
In its stilly melody,
My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake.
Yet that terror was not fright —
But a tremulous delight,
And a feeling undefin'd,
Springing from a darken'd mind.
Death was in that poison'd wave
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his dark imagining;
Whose wild'ring thought could even make
An Eden of that dim lake.

:: The Lake, by Edgar Alan Poe


03-07-2003 0:52:00
Vale a pena
.
.
Vale a pena ler, aqui ao lado...

IV República, de Miguel Souto


01-07-2003 0:32:00
Meu ser é fantasma, está aqui para te abraçar









Pálida
feiticeira esculpida em cristal,


Dos
gelos afiados em cortante punhal;


Esvoaça,
em sôfrego, a veste branca,


Infinito
manto da senhora ventanal;


Chega,
calada... Impávida carranca!...


 


Vem...
Não vem?!... Que pedi eu?!


Matei-te
o sono estátua malvada?!


Ou
acordaste c'o sádico beijo do Deus teu?


És
agora, aqui no quarto, parada,


Tristeza...
Como puta, ou amada?!


 


Queres-me
sempre, mulher-fantasma;


Meu
apertado tormento te orgasma?!...


E
vais e vens sem cessar... Onda do mar,


Empurrada
p'ró longe... Que volta p'ra matar...


 


Desculpa!
Desculpa! Roubei-te a pasma,


Teu
sossego, falando querer-te amar;


Perdoa-me
Tristeza... Meu ser é fantasma,


Está
aqui para te abraçar...




27-06-2003 13:17:00
Era um rapazinho vestido de preto
.
.
Era um rapazinho vestido de preto,
Presunçoso ser que se autoclama,
Riscando folhas de palavras no ghetto
Do quarto, por onde se derrama;
Busca o puto, um trago de fama.

Dentro das muralhas, no vazio,
Esquece o mundo, esquece o viver;
Mergulhos em espaço frio
De toda tristeza e sofrer;
Não lhe liguem...um dia há-de crescer.

E depois será imortal,
Viverá em revistas e papel-jornal
E terá distinções, medalhas;
Grande figura esculpida em talhas...

Caminhador d’outras ruas, marginal,
Passa o miúdo entre as tralhas,
Buscando o templário pedestal;

Oh que lindo culto sem falhas!


::a fotografia foi retirada de The Burning Man Cultural Association (EUA)


26-06-2003 1:10:00
E tudo era possível
.
.
uma elegante colecção poética, em E tudo era possível


24-06-2003 0:40:00
a Amélia voltou
.
.
A Amélia voltou. A minha vénia a uma das Senhoras que melhor escreve na blogosfera e na web. Ler-te é um cálice de cálido Dão, no calor de uma lareira invernia.
Anteriormente era assim.

No Quanta Saliva há mais 9 espaços de invulgar qualidade, da autoria de gente que já anda há anos nisto dos weblogs.


24-06-2003 0:15:00
O Crocodilo da Sobriedade
.
.
Em cima do balcão semi-deserto
Os copos vazios em tua frente,
Cochicham e riem disfarçadamente...
No canto, um homem lê de olhos fechados
O jornal de dois dias atrás,
Em bafos, intervalados, de tabaco...
O taberneiro, avental à cinta,
Num murmúrio imperceptível,
Esfrega a cinco minutos a mesma mesa.
Lá fora, na noite,
O crocodilo da sobriedade,
Espreguiça a bocarra
De frias e cruéis lâminas de marfim...



23-06-2003 1:41:00
O poeta é vento
.
.
O poeta é vento,
Barcaça que voga em mar de sonhos,

Feno que germina no campo,
OVNI que aterroriza e continua a ser procurado...
Raio de Sol Antárctico,
Avalanche de neve queimante,
Rouxinol Bachiano,
Formiga que foge do vulcão,
Pulga de cão.
Bebé na guerra,
Aroma de flor selvagem,
Um dinossauro em Nova Iorque,
Beijo de princesa...
O sétimo anão,
O demónio das trevas,
A fonte da juventude.

O poeta é um falhado
E tem medo,
Tem muito medo,
Quando calca o real –
O pior dos mil mundos onde vive,
Em que se teme a si próprio...


18-06-2003 1:47:00
Fábrica de sonhos e poeira
.
.
Serei eu uma má pessoa,
Um preconceituoso sabichão,
Que falsas verdades apregoa?!
Criminoso, assassino á toa
Dos sorrisos de teu coração?...

Fábrica de sonhos e poeira,
Navalhando neste ser,
Nojentos lixos que não quero ver
Em ti amor e no mundo esteira,
Onde me tomo senhor do bom viver.



Que sei eu num buraco escavado,
Por mãos que me enterram acordado,
Num outro mundo de egoístas;
Pobres, coitados dos artistas!...

E vivam os homens sem fado,
A liberdade sem regras nem pistas,
Nada foi ou é pecado;
Pecado é adorarem os artistas...




:: M.C.Escher, Rind 1955 wood engraving and woodcut in black, brown, blue-grey and grey, printed from 4 blocks


17-06-2003 13:17:00
Colagens...
.
.
.

nós, os nossos passos, o nosso barulho, o nosso pó, suor, o nosso sal, o nosso esquecimento




remela de um gatito esfomeado, conforto do macio miar





a queda dos garanhões





estremeço do selim, num domingo de sol, pelo creme de teu corpo e brancura de teus pés





um dia, grande, tocarei as estrelas...





:: fotografias:
1. Andre Kertesz, Displaced People, Budapest,1916
2. Andre Kertesz, Rue des Ursins, 1931
3. Robert Doisneau, The Fallen Horse, Paris, 1942
4. Robert Doisneau, Sunday morning in Arcueil, 1945
5. Robert Doisneau, Square du Vert-Galant, 1950


17-06-2003 1:19:00
Lavoisier esqueceu-se de mim
.

Lá fora há um fim – de – semana,
Festa, baile de música pimba,
Rodopios de álcool e sorrisos,
Vida, palpitar, vozes, gestos;
Há a passerelle onde passas,
Há tudo que Deus pôs na Terra
E nós nos transformamos...
Lavoisier esqueceu-se de mim,
Perco-me aqui, assim, a sarrabiscar
Comentários do alheio, dos outros;
Kafka que me encerras na caverna,
Sou feito de outros,
Não de mim...
É fim – de – semana, hora tardia,
E não largo a lapiseira,
Sem saber bem porque porfio,
A quem escrevo
Estes gatafunhos repetitivos;
Insatisfação, desamor,
Solidão, desespero do nada...
Escrevo para não esquecer,
Que esta rua é meu projecto,
E o destino, por mim escolhido;
No fim do mundo,
Na montanha, mar, centro do sol,
Vivo assim perdido e apaixonado,
Um foco de nada rodeado de vazios,
Uma esperança incompreensível,
Não sei bem do quê...
Tudo que desejo é que sorriam,
Deixem os choros para mim;
É este o meu egoísmo,
E viva, vivam,
Tudo por amor,
Não sei a quem,
Não sei a quê...


13-06-2003 16:24:00
O desequilíbrio dos poetas
.
.
O desequilíbrio dos poetas
Está no ficar, assim, madrugada fora,
Zombie possesso, estático e sobressaltado,
O papel branco sujo de lapiseira;
Os miolos batendo punhetas,
Como cavalos picados a espora,
E vem um verso atabalhoado,
E vai o escrito pr’á papeleira.



09-06-2003 16:27:00
Quando se acendem os candeeiros
.
.
Quando se acendem os candeeiros;
Regressam as mulheres dos leiteiros,
Fecham-se as portas de madeira,
Ardem as achas na lareira,
Fumam chaminés sonolentas,
Vão-se as últimas nuvens cinzentas,
Ferve a água nas panelas...
Descalçam-se botas, calçam-se chinelas,
Ronrona o velho gato felpudo,
Fala-se do nada e fala-se do tudo;
Vê-se a velha em frente à fogueira
E o velho na mais nobre cadeira,
Os putos rastejam pelo chão,
Brincando ao “tu és o gato e eu o cão”.
Na mesa de pau, esperam o pão e vinho,
Pelo que na panela se coze devagarinho;
Veste-se a noite de negro,
Ao som de corujas e esvoaçar dum morcego;
Batem as nove no sino da aldeia,
Os putos adormecem ao esperar pela ceia,
E os velhos discutem o trabalho do próximo dia,
Quando o Sol despertar pela manhã, a noite fria...



03-06-2003 23:58:00

.
.
Depois da consumida noite,
Afogada em suor e grunhidos;
Depois dos 6, 7, 8 e nove
Meses de impaciência mordidos,
Depois;
Depois...
“E depois?!...”
“E depois papá?! Como foi?”
Chegou-se a vaca ao boi.
“Um boi e uma vaca?!”
Ambos têm cornos e fazem caca.
“Mas foi assim que nasci?!...”
No meio de sangue, ranho e chichi.
“E de que sou?!...”
De terra, o barro que Deus amassou.
“De terra do chão?!...”
Como foi Eva, como foi Adão.
“A terra é feia!...”
Mas dela é tudo que nos rodeia.
“O mundo é redondo papá?!”
E nós em círculos de cá p’ra lá, de lá p’ra cá.
“E depois?!”
“E depois?!”
A morte tem por vizinha a vida,
Sem a qual seria falecida,
E ambas se dão muito bem,
Sem invejas e palavras p’ra ninguém.
“São tiranas?...”
Só se nós o formos também.
“São nossas amigas?!...”
Se as cumprimentares todas semanas,
Em pensamentos, ditos e cantigas.
“Cantar a morte?!...”
Quem mais canta,
O seu receio espanta.
“Morrer a cantar?!...”
Bastou nascer a chorar.
“O papá é forte?!...”
Come a sopa.
“Não é preciso força p’ra morrer?!…”
E cem vezes mais p’ra viver.
“Vai-se embora?!...”
Só enquanto comes a sopa.
“A sopa evapora!...”


Dentro da nossa nuvem.
E depois é castelo,
E barcarola;
Trem,
Camelo
E pistola.
“Papá, a nuvem chove?!”


::pintura The Lord is my Light (n.i.)


03-06-2003 1:10:00
Nas covas de nossos dentes


Elevo nas palavras
As coisas do amor
Desvanecente...
Porque tudo que temos para amar
Quando estamos os dois,
Se entala nas covas
De nossos dentes.
Somos amantes,
Pelo amor que não mastigamos,
Pelo que cresce
E rebenta em nós
Sem qu’eu possa
Depositar-to em teus lábios,
Sejam eles
Quais forem.


03-06-2003 0:51:00
Um Bom Cardápio
.
.
===> Pataniscas de Bacalhau com arroz malandro e um Porca de Murça branco...

Cllléééppp!!!


30-05-2003 15:37:00
Aqui só há nada
.
.
Ninguém...
Ninguém, jamais, quererá saber,
Disto, que se escreve,
Aqui só há nada, nada para ler;
Quero pôr aqui,
O que não se tem,
Juntos, calor e neve;
Este espaço é vazio,
Não há comunicação,
Não há mensagem,
Não haverá, interlocutor...
Ninguém ansiará ler,
Sarrabiscos de vacuidade;
Se olham momentaneamente,
Acreditem:
Isto é nada!...
Porquê perturbar?!
Porquê comentar?!
Porquê recitar asneiras,
Palavras ocas, como estas?!
Isto é nada,
Simplesmente, nada...
Não criem novas correntes,
Não criem o globalismo poético,
O capitalismo literário,
Pois não há conteúdo,
Tudo está em descrédito.
Ninguém, algum dia,
Pousará aqui os olhos,
Para pensar, sonhar, sentir,
Pois já não se pensa – é piroso,
Os sonhos! Estão no shopping e,
Sentir?! Sinto mais com ecstasy
E brincos na língua...
Se me lembro da carochinha,
A que tinha orelhas de burro?!

É isso mesmo:
A clone omega do pinóquio,
Eu e ela somos de enésima raça,
Mas não comentem alto,
Escutam-nos os beta, betinhos
E os clone alfa estão por aí;
Ainda me levam
Á correcção genética!...


27-05-2003 23:58:00
Melhores
.
.
dois «o meu e-diário» melhores que o antoniologias (se permitido o paralelismo)

::Spitzig 3, da Dinamene

::Magia, da Eloísa


27-05-2003 0:09:00
2 extractos (do pedro mexia)
.
.
Neste Poema

Neste poema vai entrar quem eu não queria.
(Não tu, que estás sempre dentro,
e na tinta do tinteiro,
e na dobra dos versos,
e no carbono que respiro,
e no som da madeira,
e na hesitação, na certeza hesitante,
nas intenções declaradas
e nos actos puros ou impuros
em que me divides,
e na constância das paredes e da música,
e anterior às estações, anterior ao sono,
anterior como foste amada
e contemporânea dessa estação).
(...)

:: retirado de Avalanche, edições quasi

***** *****

(...)
Pedro M tem uma incapacidade sexual bizarra: em vez de erecções, tem versos de Holderlin, evita o cunnilingus para dissertar sobre Pavese, e no momento do acto relembra, comovido, passos da vida de Kierkegaard. As moças não esquecem o momento, e acordam, anos depois, alagadas e suor e em terror.
(...)

:: transcrito de a coluna infame


26-05-2003 23:46:00
As Mulheres do Arco-Íris


IV.Preta


 



A
rapariga de negro,


Gótica
gata – borralheira,


Lábios
cor d’azeitona,


As
sombras alcatroadas, dos olhos;


Baila,
de si abandonada,


No
centro da pista em esterco,


“Back
in Black!”,


Baila
Angela, escangalhada,


Na
penumbra da disco;


A
song fina,


O
estrepitar perece,


E
da cripta, os botins pretos


Trazem
a rapariga ao balcão de xisto:


-
“Tó, serve-me um café...”



Pelo
precipício da goela,


Espalha-se
o líquido escuro,


Até
ao fundo da urna estomacal;


-
“Cangalheiro, vem comigo,


Cegar-me
a noite...”


E
de alma enfarruscada,


Angela
e o urubu


Dão-se
ao exterior nocturno,


Da
urbe...


Detrás
do recôndito mausoléu,


Deitada
na terra morta


E
coxas escancaradas,


A
rapariga sente-se suja:


Tem
sobre o umbigo,


A
mancha láctea


Do
coito interrompido...






26-05-2003 0:57:00
As Mulheres do Arco-Íris

III.Vermelha


 



Prendes-me
a língua em teus lábios,


Soltas,
sorris linda, as gengivas carmim,


A
boca, bochechas de menina corada


Perdida
no calor do fogo, incendiada,


Rubra
flama incandescente;


Os
mamilos eriçados d’encarnado,


Cereja
sem fim;


O
sangue palpitante, quente


Nas
veias, teu corpo escarlate,


Crepitante,
que bem fica;


E
em lava, gemes,


Os
gemidos que deitaria por ti,


Se
as vulcânicas coxas


Não
me prendessem a língua,


Em
teus lábios, Rose Mary!





26-05-2003 0:51:00
As Mulheres do Arco-Íris


II. Verde


 



Esta
floresta de esperanças,


Folhas
d’eucalipto e carvalho,


O
musgo, húmido e vivaz,


Lagartos
sob os cedros,


Frias
cobras – esmeralda


Defronte
do vazio da garrafa,


Vinho
das serras do Norte;


O
silêncio, mar esquecido,


A
quietude das oliveiras no prado;


Nave
de serenos marcianos,


Sobre
as copas d’Amazónia,


Entre
o bosque clorofilino


De
jovens acácias vegetativas;


No
fel amargo desta busca,



o verde,


Os
teus olhos tenros de verde.





24-05-2003 15:42:00
a um rato morto encontrado num parque (de Cesariny)
.
.
Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas — tão junto ao focinho! —
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário

Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo — com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa — e aos médicos —
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos — vítima e carrasco

Não tinha amigos? Enganava os pais?

Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.

Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?

Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?


:: texto de Mário Cesariny


23-05-2003 0:07:00
...fundo de um par de calças (de EE Cummings)
.
.
minha especialidade é viver - era a legenda
de um homem(que não tinha renda
porque não estava à venda)
olhar à direita - replicaram num segundo
dois bilhões de piolhos púbicos do fundo
de um par de calças(morimbundo)


::texto de Edward Estlin Cummings


22-05-2003 23:39:00
O Bater no Fundo

(...)/ Terras de perdição/ Parco império, mil almas/ (...)/ Pata de negreiros/ Tira e foge à morte/ Que a sorte é de quem/ (...)


::extracto de "A queda do Império", Vitorino


22-05-2003 1:14:00
Superficial
.
.
Superficial...
o azeite de tuas palavras,
sobrenadante,
do bacalhau essencial das coisas.



Hidrocarboneto,
hidrófobo,
por cima,
gaivota planante
sobre os tijolos do ser.


20-05-2003 0:52:00
O Gancho de teus Cabelos
.
.
Este estranho sentimento,
De julgar ter a mão em tudo,
Prender, segurar o intangível
E, para querer dar, entregar,
Parar defronte de tantas portas cerradas;
Julgo ter perdido as chaves
De minha própria casa,
E é tão árdua a tarefa de as derrubar,
Que acedo, em vai-vens irregulares,
Pelas janelas gradadas.
Convido-te, quero que entres,
Mas não posso abrir-te a porta. Já não o consigo;
Estou agora, qual Conde Andeiro,
Forço a entrada, entalado, preso do lado de fora;
Deixem-me entrar em casa,
Pervertidos carcereiros!
Vês assim, querida bela,
Que estou a teu lado, no frio exterior,
Espero que o gancho de teus cabelos,
A delicadeza de tuas mãos,
Nos abra o caminho...




20-05-2003 0:14:00
a ti
\
\
Terra do chão
que não sentes
o calor de um abraço;

Água do mar,
que não degustas
o sal de uma lágrima;

Ar frio
que não percebes
a ternura de um beijo;

Labareda de fogo
Que não vês
O encanto de um sorriso;

Constróiem-te 4 elementos soltos,
4 gregos de gravata engomada,
terra, água, ar e fogo.

E o resto...
o resto é nada:
- o conforto,
- o sofrimento,
- a paixão,
- o amor.

O resto é cansaço e suor,
da laborinha
dos quatro elementos...

***** *****

***** *****

Perco-me em cinza
do fogo que me consome,
evaporo ao sol
a água que se me transpira,
dissolvido na brisa
o ar que expiro,
pó do solo
a terra que me constrói;
minhas células ovos-estrelados
minhocas de ADN, vermes rabiantes
átomos caroços d’azeitona
e uma teia de moléculas,
pontes de hidrogénio
e aranhas que se balançam
nos interstícios subatómicos...
Eis a massa, palpável,
mas que não para, não fica;
E = m * c ^ 2, a energia,
o calor de um abraço,
da paixão
do amor;
amar-te-ei sempre,
enquanto c # 0,
os passos me nascerem
e os braços te confortarem;
amar-te-ei sempre,
enquanto m # 0,
te abrigares debaixo de meu peito,
nossas faces juntas,
no iglô de teus cabelos...


::pintura «Hana Coast Sunrise» de William Neill


14-05-2003 18:40:00
ao colega de «O meu e-diário»
.
.
a fim de esvanecer eventuais mal-entendidos e
porque o assunto abordado revela-se actual e
de interesse inquestionável,
um voto de consideração ao responsável pelo

007-Antevisão e
a solidariedade,
devida à brincadeira estúpida, de quem sido vítima,
nas últimas horas, neste universo do O meu e-diário


14-05-2003 16:31:00
Eu Já...
.
.
:: eu já fiz canja de galinha e sopa de penca

:: eu já puxei por uma vaca a parir e borrei a cara na pocilga

:: eu já roubei, fugi, menti, enganei, bati, magoei, ralhei

:: eu já senti a fome, sede, sal do suor, o sabor do sangue dos arranhões da carne (e não desmaiei)

:: eu já vesti fato e usei gravata (ó larilas!)

:: eu já tive um cão cego que via um mundo (chamava-se Perdido)

:: eu já me perdi por Eça, R. Maria Rilke, Hemingway, Kafka, Mia Couto, M. Duras e Herberto

:: eu já caguei de cima duma figueira (ganda porco!)

:: eu já gostei do Cunhal, do Louçã, do Mota Pinto, do Mário Tomé, do Monteiro e do Adriano Moreira

:: eu já anedotei o PM e caí em flacidez com o PR (mais que as “bolachas” do outro)

:: eu já fui a Lisboa e não gostei de lisboetas

:: eu já enxovalhei o FCP e adorei os amigos portuenses (e adoro)

:: eu já tirei 19 e 9, fiz PGA, TPC, PE, PA, PG e chichi na cama

:: eu já vi o mar, a serra, as nuvens e as entranhas da Terra; vi o nascer e as fímbrias do fim

:: eu já amei quem não devia e não amei quem merecia

:: eu já me rendi a Elizabeth Fraser, Emir Kusturica e a uma seringa nas mãos trémulas de um desgraçado (que depois me pediu desculpa)

:: eu já vivi com Amália, Natália Correia, Mário Viegas, Sá Carneiro, António Variações, Teresa Calcutá, Ayrton Senna, ti Manel Pistola e ti Jão Picado, Y.Rabin e Ian Curtis

:: eu já sonhei ser escritor, poeta, jornalista, político, prémio Nobel, grande psico-sociólogo, mas esqueci tudo quando quis ser deus

:: eu já dei a mão, o braço, o abraço, o peito, os lábios, o corpo, as coronárias e a alma

:: eu já julguei ser algo mais que, o nada de, um pequeno ser

:: eu já...


13-05-2003 23:57:00
Não sou menos que Einstein ... (da Adília)
.
.
Não sou
menos
que Einstein
nem que
Claudia Schiffer
não sou
mais
que uma osga
ou que uma barata
não sou mais
inteligente
que um mongolóide
tenho um Q.I.
no limite
superior
da média
todos diferentes
todos iguais
incluo também
os animais
o que nos separa
dos animais
é o pecado original
não é o reconhecimento
no espelho
nem o complexo
de Édipo


:: retirado de «Quem Quer Casar Com a Poetisa?» da Adília Lopes (ed.,quasi)


13-05-2003 12:18:00
O Lobo e o Cordeiro
.
.

A conversa do cordeiro para o lobo:
Conheço-te animal assassino,
Instinto de sangue, incisivos, faca aguçada;
Não demonstres pois, esse jeito amaricado
De bicho – bicha mansa de olhar piedoso,
Uiva aos céus, invoca os deuses e demónios
Do teu universo de perseguições e matanças –
Sou cordeiro debaixo de tuas garras,
Devorarás estes fígados e coronárias,
Em repasto sôfrego e relampejante,
Traiçoeiro canis lupus, canis, Canis!
Vem animal falso e de bazófias,
Vem que a mesa está posta,
Vem aos beijinhos e sorrisos,
Que estou aqui – só escolhes frito ou de chanfana...
Não fugirei, nem procuro esconderijo:
Matas-me e devoras-me sem pestanejar...
Sei, contudo, que o colesterol te atacará,
Essa pança tesa e inchada te rebentará um dia;
Serás, aí, um canis lupus todo cagado
Lambendo as fétidas fezes na calçada...


13-05-2003 0:51:00
Não Escrevas teus Poemas a Lápis

-
“Não escrevas os teus poemas a lápis!...”


Sussurra-me
a folha branca;


-
“Olha que a borracha borrachona!...”


Vou
escrevê-los a borrona...


-
“Não! Não! E o mata - borrão?!”



sei; risco-os a carvão...


-
“Oh, não! Vou ficar toda enfarruscada!”


Pronto!
Pronto! Vou fazê-los a tinta dourada...


-
“Dourado?! Que piroso, ó poeta!”


Ahhh,
elegância! Tenho esta caneta...


-
“Não! Não! Não! A caneta, em mim, não!”


Folha
de papel, vou escrever-te um palavrão!


-
“Ah! Ah! Ah!
Que ideia mais lerda!”


10-05-2003 1:36:00
Se eu pudesse (do Pedro Mexia)
.
.
Se eu pudesse
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.


::retirado de Avalanche do Pedro Mexia (edições quasi)


09-05-2003 1:51:00
Deus
.
.
gostas
do João de Deus & J.C.Monteiro
da Ana de Deus, da cabidela dos fortes &
ossinho parietal,
gostas do deus da Björk
e do homem-gasolina
dos jovens deuses alpinos;
gostas de adeus
não de tixau, horripilas-te com tchau,
gostas de deu, Deu, Deus e de Dar,
não gostas tanto de dEUS,
mas falta-te catequese;
gostas do buda, de alã,
odin, woytila e zeus,
de júpiter e jc.
Gostas de baco e morpheus.
não gostas de barbaças, barões,
golfe, Pinheiros e deus.
...



08-05-2003 1:20:00
a burrice
.
.

era o burro
burrito
burreco
burróide,
um burro
burrão,
burro velho,
orelhas de burro,
burrachão
feio burralho,
burroso
burreiro,
burro casburro.
Burro
zurro,
burro
zurrro,
burro
zurrrro.


07-05-2003 1:00:00
chuvisco escarlate, triste (...) Varsóvia...

o
pianista


de
Polanski


dedilhava
entre stukas e panzers


acordes
de vapor


condensados
em sangue,


chuvisco
escarlate, triste,


nas
avenidas e


palacetes
de Varsóvia...




07-05-2003 0:42:00
De Profundis (da Marta Catarino)
.
.
Errei na vida espero não me enganar na morte
Disse-me um anjo terrível que a morte não é o fim
Não quero nem hei-de suportar a eternidade
hei-de mutilar destroçar de tal forma a minha alma
que nem Deus se existir será capaz
de recolher os restos dela
serão tantas as migalhas que o sopro divino
tentando insuflar-lhe uma nova vida
há-de dispersá-la para sempre no esquecimento
Quero pôr e dispor de mim própria
quero usar e abusar de quem sou
quero poder dizer “basta!” e quando o disser
há-de ecoar em toda a Criação
e ninguém duvidará do que quero dizer
quando disser “basta”!


::retirado de «Os Dias Inúteis» da Marta Catarino (ed.,Autores de Braga)


04-05-2003 1:19:00
Sangramento perpétuo, em teu regaço, sobre o vestido florido

Porque
cantam os homens,


Esta
intemporal, associal,


Incessante,
repetitiva,


Sempre
especial,


Sempre
a mais pura e bela,


Sempre
a espetar e doer,


Cravada,
inevitável,


Que
me habita, questionando a vida


Esquecendo
a morte...


Porquê
este ópio fatal,


Gélido,
pontiagudo punhal,


Sangramento
perpétuo


Em
teu regaço,


Sobre
o vestido florido;


Porque
tremo


E
me escorrem lágrimas


Ao
imaginar esse Éden


Pintado
a lápis de cor


Em
areia de praia de mar revolto...


Porquê
não cansar,


Desregulação
hormonal?!


Sonhador
infantil?!


Vida
tenra de verde,


Sem
chagas reais?!


Que
sinfonia esta,


Sempre
prendendo,


Puxando
para ti


Ao
som de violinos


E
majestosas valsas...


Fecho-me,


Calado,


Drogado


Pela
palavra;


Pelo
gesto...


Amor...


29-04-2003 23:46:00
As Mulheres do Arco-Íris
\
\
I.

Azul



Impregnada de azul,
Do frio gelo húmido,
Maria Atlântica era assim;
Olhar profundo e fresco,
Os sonhos lindos pintados de blues...
Velvet, hortênsia jovem, Açores;
No jardim, Atlântica,
Na superfície espelhada do lago,
As dissolventes íris safira...
Vestia jeans de ganga Lee.



29-04-2003 0:53:00
Insignificâncias
\
\
Rosa silvestre,
Que no prado danças tanto,
Aroma campestre
Perfumas meu santo
Perdido no nicho;
Mais parece bicho
Ao homem que passa
Pela trilha d’alcatrão,
Caminho sem graça,
Sem conexão;
Onde dançam nas bermas
Rosas silvestres,
Em floresta de pernas
De pensamentos agrestes
Que não valem um tostão.


meditative rose, by salvador dali


28-04-2003 15:46:00
O teu vizinho é um "Corona"
\
\
ler mais, no Grandangular.

um espaço muito interessante (relativa afinidade profissional). Parabéns Carlos!


28-04-2003 15:18:00
Blue Roses in your Hair
\
\
rosas
papoilas
dálias
margaridas
tulipas
cravos
teus olhos
e teus lábios,
violetas
jasmim
hortênsias
girassóis
malmequeres
bem te quero,
amor-perfeito


"perguntaste-me
1 dia se era como a
florbela.
respondi que não.
pois bem, menti.
acho que sou pior.
gosto de ti apaixonadamente!"


:: fotografia»» Tina Modotti, Roses,1925


27-04-2003 2:27:00
O Queixume destes Energúmenos
\
\

O
queixume destes energúmenos,


Incessante
e pitoresco,


Que
apoquenta almas


E
lava olhos de fresco;


Os
sermões destes senhores abades,


Persistentes
e chorosos,


Que
assanham beatas


E
sucumbem gatos remelosos;


Os
ditados destes catedráticos,


Tão
elaborados e tão vazios,


Que
enchem intestinos de hepáticos,


E
põem baronesas a ver navios;


A
lengalenga inchada,


Em
quadra morcona,


Ou
redondilha decassílaba,


Que
efervesce a mona


A
toda a macacada.


Estes
sarrabiscos ultrajantes,


Que
alvoroçam e confundem,


Que
são, de que servem?!...


Não
seria melhor antes,


A
energúmena e o abade,


O
catedrático e a inchada,


Trocarem
uns beijos, com moderação,


E
mais tarde,


Manjarem
um ganso em consoada.


Haverá
melhor lição?!




23-04-2003 23:59:00
As Gravatas do Banqueiro

Robert Doisneau; L'Accordeoniste, rue Mouffetard; Paris, 1951


IX. Os Administradores
Bom Dia, como passou?!
- Venha ao meu gabinete;
O presidente já chegou.
- Lurdes, procure no arquivo
O processo ALFA NET!
- Já levo, Sr. Engenheiro!
- Viva Doutor Lash Ivo!
- O prazer é meu caríssimo!
- Bonita gravata. Valeu o dinheiro.
- Senhores, iniciemos a reunião;
O trabalho é vastíssimo!
- Doutor Lash, V. Excelência
Tem o processo na mão.
Como vê, em cada extremo
Moram os busílis da questão.
Os técnicos, na urgência
De levar a bom termo
A resolução do problema,
Entraram em dilema;
O projecto ALFA NET
Falha num extremo,
Na cabeça, na “tete” –
É demasiado chata;
No outro lado,
A dificuldade mais nefasta,
Dr. Lash Ivo, está no bico –
Mesmo com cuidado,
Quando o ALFA NET é usado,
Não se evita o pico.
- Senhores, como presidente,
Declaro o projecto cancelado:
O ALFA NET é repelente!


23-04-2003 23:49:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
VIII. Os Cavadores

Era o bom cavador
E seu camarada, o mau.
Dois campos em estertor,
Duas enxadas, suor,
Sol a dar com pau.
O bom atiça à terra,
Em raiva, sua ferramenta;
O solo, degolado, berra
Os impropérios que encerra.
A marcha do mau, mais lenta,
O pó mal levanta,
O chão é esgadanhado;
Cobre cada planta
A terra, uma negra manta
Estendida por todo prado.
O bom cava, cava,
Golpeia o solo duro,
Quebra a pedra, a rocha de lava,
Aperta o músculo, solta baba;
Nasce uma cova no escuro.
Em leves cortes,
O mau o campo cavou,
E á noite, em passos fortes,
Jerico ao lado, aos trotes,
Á casa na aldeia, voltou.
O outro no buraco,
Sangue nas mãos,
Não para seu acto;
Bate cada vez mais fraco,
O ferro sobre os chãos.
Toda a cova é noite,
O bom cavador é sem pressa;
Açoite atrás de açoite,
Treme a terra na noite,
Até que a jorna cessa.
O homem, no fundo,
Tem na mão uma pepita,
Mas é caído, moribundo,
Ás portas doutro mundo.
A terra se agita,
O buraco é fechado.

Três Primaveras depois,
Um salgueiro há brotado
Sobre o cavador enterrado...
O mau, pasta ali, seus bois.


Minor White; Barn and Clouds, in the Vicinity of Naples and Dansville, New York; 1955


23-04-2003 12:43:00
2 Destinos
\
\
:: melodias cintilantes, sonoridades de pedras preciosas


:: bailar translúcido, palavras nevoeiro e água


23-04-2003 0:18:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
VII. O Riso do Mendigo

O mendigo da esquina d’avenida
Coberto de negros trapos andrajosos,
Fazia todos dias, ali, sua vida.
O Sol, polícia na alvorada,
Mordia-lhe, cedo, os olhos remelosos;
Volta-se, revolta-se deitado no passeio,
O mendigo, desconsolado, cai para a estrada.
Levanta-se, sacode a casaca em asseio,
Olha, rendido, o cacetete solar,
Funga o nariz na manga da vestimenta,
Recolhe a cama dura e pestilenta,
Não vá o senhor do lixo a capturar.
O pedinte em movimentos preguiçosos,
Ordena, peça a peça, roupas, sacos, papelões,
Verifica os bolsos, o púcaro metálico dos tostões,
Que por cada beijo nos lábios rugosos,
Tem de ser antes beijado pela fria piedade
Dos transeuntes. Passa a padeira,
Arrotando pregões pela cidade;
Tira do saco uma merendeira
Tão morna, como as palavras:
- “Tome santinho! Coma, qu’aquece o coração!”
- “Que tem no meio?” – pergunta o desgraçado;
- “Tem terra, gente nas lavras,
Espigas ao vento, malhas a Sol de brasão,
Grão na eira, moinhos e esfarelado!”
- “Você dá-me tanto, que me pesa a mão.
Dá-me tanto que só como um bocado
Hoje, outro amanhã, outro pr’á semana...”
Os bolsos da casaca do mendigo
Eram assim cheios de migalhas de pão,
Eram um pedaço de terra plana,
Lavradores suados, erva de trigo;
Os bolsos eram ainda, semente – grão,
Mós sobre a água do regato,
O moleiro, a farinha, o burro cansado,
A masseira, o fermento no prato,
Eram o forno a arder em chama,
O calor, o cozer, o pão acabado.
E o pão da padeira foi devorado;
P’ró bolso, foi a migalha de grama...

A manhã espalha-se pela esquina,
Abrem-se as lojas, a esplanada,
Passa toda a gente, gorda e fina,
Magra e grosseira, ao longo da calçada
Da rua, dos olhos e púcaro de metal;
“Tlim! Tlim!”, a música do cobre
Na esquina, como a chegada do Pai Natal,
Embala e faz acreditar o pobre,
Na consoada, no peru fidalgal,
Na mesa longa e sala quente,
Roupa branca, luz, riso de gente,
Nas travessas, talheres, copos de cristal,
Na corrida, felicidade da criança pequenina,
No pinheiro, anjos e na estrela cadente.
O pobre, trémulo, limpa seu púcaro – mina,
Recolhe o ouro reluzente,
Afaga-o c’os dedos nodosos, contente.

E sem se aperceber,
Atropela a tarde, distraído;
Cai na auto-estrada da noite, sem ver.
E o mendigo, coberto de trapos e jornais,
Sobre o passeio, contraído,
Adormece, e volta a nascer,
Lá longe, entre os arrozais...


Yousuf Karsh; Spring Song (Solange Gauthier); 1938


23-04-2003 0:15:00
As Gravatas do Banqueiro
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VI. O Banquete

No amplo salão de granito,
A longa mesa de carvalho,
Coberta c’o linho mais bonito;
Louça de cristal d’orvalho,
Dourados talheres de nobre talho.
Os hirtos cadeirões almofadados,
Exóticos tapetes pelo chão,
O silencioso vai - vem dos criados,
Das cozinhas p’ró salão;
Sentam-se as damas e o barão.
O mordomo em aprumo,
Com a gabardina do comendador,
Indica na mesa, o seu rumo,
Entre o abade e o doutor;
Chega, entretanto, o corretor.
De farta barba encanecida,
Grosso anel de brilhantes,
Gravata de seda, garrida,
O banqueiro em palavras sonantes,
Cumprimenta, um a um, os ocupantes.
Os iniciais louvores brejeiros,
Entre tragos de Martini,
Animam as madames e cavalheiros,
Os Andrades e as Lili;
Servem-se cordonizes à Dom Nicolini.
Guardanapos nos colarinhos,
Casacos de botões desapertados,
Bordeaux e Esporão, os vinhos,
Salmão, espadarte defumados,
Dentes e línguas nos linguados;
Não param os maxilares,
Sua sinfonia envolve a mesa,
Há música nos goles de Colares,
No trincar do faisão à Vienesa;
Arrota-se, de pança tesa.
O garçon dispõe o caviar,
Da cave, chega o moscatel,
E os senhores sem parar,
Mascam de modo insaciável,
O borrego, o javali, vitela e o mel,
As passas, as natas, o melão...
Os buchos cheios, ufanos,
Serenam, um a um, em lentidão;
Acendem-se os havanos,
Brandy e Cognac velhos anos.

Nas cozinhas do palacete,
Os criados, pelos bancos, em suor,
O mestre cozinheiro, sem barrete,
Enfarruscado, queimado em calor;
Os panelões, vazios, em redor...


Manuel Alvarez Bravo; First Solitude; 1956


20-04-2003 23:42:00
Toda a distância que nos separa
\

Longe,


Observas
meu caminhar;


Alguém
te prende nas alturas,


Não
me podes falar...


Fixo
tua pálida cara,


Gelada
às escuras;


Toda
a distância que nos separa


Pode
ser o outro lado da rua;


Um
dia, como negra arara,


Te
tocarei, Lua...







20-04-2003 23:13:00
O Paraíso e o Submundo
\
\
O Submundo

era Carolina...
foi Carolina...

a notícia arrombou-te lés a lés,
esvaziaste-te em torrente amorfa,
pelo chão da alma... frio...

Carolina era vintona,
ou,
vintezinha
ou,
20
...

O crime?!...
Foi impiedoso, fulgurante, gélido,
num Submundo temeroso;
uma Neisseriasniper
ou,
uma Entamoeba estripadora...

Um meningitocídio – assim foi registado no obituário.


The Guardian Angel; by Lauren Ford


*** *** ***

O Paraíso

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha.
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é seda vermelha e canta e ri


The Kiss, NYC; by Alan

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando meus olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
::da Florbela


15-04-2003 23:22:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
V.História de Beatriz

Beatriz tinha quinhentas;
Quinhentas pratas brilhantes
Entre as moedas cinzentas.
Olhos tingidos de negro,
Pescoço em bijouterias cintilantes;
Sai trajada d’encarnado
P’rá noite – triste morcego,
Esvoaçar confuso...
Deixa o quarto alugado,
Caminha para a baixa
Em passo profuso.
Na perfumaria da Cacharel;
Cem pratas na caixa,
Banha o corpo na essência.
Toma o licor de mel,
No doentio bar dos cultos;
“São cem pratas... Com licença!...”
Cento e cinquenta e cinco,
Paga em pratas e tumultos,
Pela peça do Nuno Gama.
Atravessa num brinco
A snob praça central;
“Quem é, como se chama?”
Fica no ar seu cheiro...
E junto à catedral,
Anuncia-se o teatro:
“As gravatas do Banqueiro”,
Pela companhia do PRIOR;
Cento e quarenta e quatro,
Perdem-se as pratas na bilheteira,
Perde-se a rapariga no interior
Da magnífica plateia.
Peça a meio, deixa a cadeira
Vazia, no nobre salão;
Atacada de diarreia,
Sobre a sanita no w.c.,
Com a última prata na mão,
Limpa o orifício que não vê.


Lothar Wolleh; Woman; 1966


15-04-2003 23:15:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
IV. O menino, a tigela, o sal e o mar

O pretinho era tigela seca,
Como seco era o barro,
Na barriga do menino;
Duas canoas esculpidas nos olhos,
Toscos remos dependurados,
Esguios e delgados,
Nos flancos da carapinha.
O pretinho, nariz evaporado,
Sol na pele, maresia no horizonte,
Ondas na praia da alma;
Pincha o pé escaldado,
Na areia fervente do deserto.
O menino queria o mar
Como o negro queria o menino.
E foi buscar o mar...
Estendeu a tigela,
Á lágrima da preta,
Ao golpe da baioneta;
Colheu o suor do avô,
Espremeu o pó da terra...
O pretinho falou ao orvalho,
Condensou o macaco,
Namorou o crocodilo,
Vergastou as pedras,
Fez correr o camelo...
E... No fundo, sujo, da tigela,
Uma assustada gotinha de sal,
Seca como o barro,
Na barriga do menino...


Sebastião Salgado; Children's ward in the Korem refugee camp; Ethiopia, 1984


15-04-2003 23:11:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
III. História de Vitório

Vitório era velho;
Vitório era só.
Face enrugada à chinó,
Olhar doentio, vermelho;
Um zombie na mansão;
Com muito ouro, pouco pão...
Dez anos – acusa um companheiro;
O vidro partido, valeu-lhe um tostão.
Jovem, rouba ao padeiro,
Por dia, um merendeiro.
Vinte e dois – contrabando;
Um anel no mindinho,
Início de um novo caminho.
Os trinta vão chegando,
Desvia um valioso pergaminho,
Do Cairo para Harare;
O sultão premeia-lhe o anelar.
Aos quarenta, trafica do Equador
Heroína, pelo mar;
Torna-se um senhor,
Anel de rubis no indicador.
Cinquenta anos sem igual,
Ao ministro faz chantagem;
Um adultério em viagem,
Um aro platínico no central.
Sexagenário numa vertigem,
Corrupção de estalar,
Um último anel no polegar.
Agora, na grande mansão,
Sente o tempo encurtar;
Vitório tem cancro de pulmão...
Cinco tumores, quantos os dedos da mão.


Sebastião Salgado; A community above Chimborazo; Ecuador, 1982


15-04-2003 18:27:00
:
\
\
a sumptuosa avalanche de sonhos e diamantes da fabulosa invasão de teus olhos negros


12-04-2003 1:03:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
II. Os Dois Gritos

Nas ruelas escuras,
Os casebres e barracos,
O tijolo vivo, fracturas,
Vidros quebrados, cacos...
E há buracos, muitos buracos,
Nas paredes, pelo chão,
Nas chapas dos telhados,
Nos olhos famintos dos putos,
Nas feridas das pulgas no cão,
Nos lençóis pendurados
Que os escapes tornarão enxutos;
Há, ainda, espalhados,
Lixos pelas soleiras,
Choros, berros de bebé,
Crianças sem joelheiras
Nas calças negras, sebentas,
Bué de esterco, bué...
Nessas ruas fedorentas,
Correm, gritam rapazolas,
Atrás de cães, gatos, bolas,
Atrás do que morde a vista,
Do que cala a barriga,
E nessa procura mista,
Incessante, sem fadiga,
Mais que o grito pelo trapo
Ou brinquedo achado,
Vale o grito pelo naco
De comida, logo devorado.


Andre Kertesz; Wandering Violinist, Abony, Hungary; 1921


12-04-2003 0:53:00
As Gravatas do Banqueiro
\
\
I. No Largo do Hotel Central

No largo do Hotel Central,
A multidão em gritos, empurrões;
A polícia, as barreiras,
Porteiros trajados à general;
Um longo tapete encarnado,
Avenida de damas e barões,
Barrigas e carteiras;
Não para o cortejo;
Madames de rosto pintado,
A luxúria dos carrões...
“Oh! Le monde est très joli!
Quanto custa um beijo?
O meu andar requintado,
Magnífico, pelos salões;
Paris, Roma, Alcácer - Kiwi...
- Como está querida,
Que colar esmerado!
Tenho igual nos gavetões...
- A Cornélia é mais obesa,
Não acha Dida?!
- Ssshiuuu! Vai-se cantar o fado...”
“Ssshiuuu...” – Borbulha o champagne
Nas taças, sobre a mesa.
P’ra esta sede não há bebida...
Qual barril atestado?!
Não há drink que banhe
A garganta d’avareza!...


Eugene Atget; Ragpicker; 1899-1900


12-04-2003 0:14:00
Aguaceiro interminável... (Saudades do sol...)
/
/
Chove, chove - chove muito - chove a cântaros - e
quero lá saber se a chuva molha, arrepia, constipa.
Só quero meter a alegria na pele,
meter-me na chuva de substância das coisas,
eu e a lengalenga da água
a resplandecer.


10-04-2003 0:34:00
Negritude
\
\
olhas um céu de manchas escuras,
um azul que a noite come

existe, um vento, nas folhagens
eriçadas de virgindade primaveril
e o chilrear do passarêdo,
atónito, no clarão óhmico da urbe

há um silêncio que te fuma,
cais em cinza, no nocturno,
nos olhos da cegueira...

olhas um inferno escuro, sem manchas,
devora-te a negritude da distância



Sebastião Salgado; Refugees in the Korem camp Ethiopia, 1984


09-04-2003 18:14:00
é contra mim que luto (saudoso Torga)

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.





Miguel Torga – Orfeu Rebelde


09-04-2003 1:18:00
Hélène

rien*


Vestido negro e violeta,
Olhos tristes na pálida pele,
A jeune fie, avioneta,
Aterra pelas ruas da baixa…
Na brisa, o parfum da Chanel,
A austeridade dos saltos altos,
O caminhar cego, pré - direccionado,
P’rá aquela mesa, na praça,
Entre os vidraçais do Piaff Caffé:
- “Bonne nuit, madame...”
- Nicole, si vous plait…
A frágil silhueta, sentada,
Penumbra sub os candelabros,
Menina Branca de Neve,
Afogada nas íris abissais;
La femme est solitaire,
Como a Lua sur la mère,
As letras em la poème...
- “Hélène?...”
- “Oui!...”
- Qu’est tu pense?…
As pálpebras cerram,
O cigarro deprime-se,
E na fria madrugada da pergunta,
Os trémulos lábios orvalham;
- “Rien... mon amour...



*.Alexandre Reigada;Tocata Destrutiva do Silêncio na Luz


08-04-2003 18:22:00
tantos pintores

Tantos pintores
Tantos pintores...
A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures

Tantos mortos no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.


tantos pintores, M.Cesariny


08-04-2003 0:48:00


Enchantement Vesperal (Marc Chagall)

ressaltam,
ondulam,
em cascatas intermináveis, por tua alma,
nestes dias;

morres,
em sangramento perpétuo,
em teu regaço,
sobre o vestido florido...

morres,
assim,
todos dias...


08-04-2003 0:26:00
palavras assassinas


the king´s sadness, H.Matisse


Estas coisas de preguiça,
Amorfa, parada, sem face;
Criação inexistente,
Falamos sempre do mesmo,
Que desgasta, soa a mentira,
Não se sente como antes;
Ai que macaquinhos
D’imitação,
Em papel de fotocópia
Onde estou eu?!
Onde mora a poesia?!
Tudo parece velho e sujo,
Sem doce, fresco, luzia;
Estarei em extinção?!
Sem pré-inflamação?!
Já não fecundo e crio,
Os meninos loiros e berrantes
D’outrora,
Já não há aquela linfa
Quente e fluente,
Os versos elegantes,
Os raios de Sol d’aurora...
Suicídio?!
Cada palavra, cada navalha,
Cada linha, cada tombo,
No chão, em assombro...
22.08.01


04-04-2003 16:52:00
mulher, gato e casa (do herberto)



Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.


Mulher, casa e gato (de herberto hélder)


04-04-2003 15:13:00
um cálice de nitroglicerina...




explodir

Dalí, Exploded Head, 1982


foi você que pediu
1
cálice
de nitroglicerina?!...


04-04-2003 0:18:00
O Boi da Apatia


cow wallpaper, Andy Warholl, 1962

Esta serena tranquilidade,
Resultante do esquecimento das coisas,
Plena passividade de tudo,
Nada chateia, nada inoportuna,
Uma cama macia, aberta,
E eu tombando de sono...
Esta tentação subtil
E dormente,
Balada incessante, que puxa;
Um boi de apatia,
Outro boi de adiamentos,
Uma carroça vazia,
Para um precipício de nadas...
Não sei se aqui,
Agora, nesta coluna de letras,
Estou a escrever “rendição”,
Se vinco a posição,
“Não quero e ainda não caí!”
12.07.01


03-04-2003 2:40:00
triunfos


abrir
the triumph of death;
Pieter Brueghel, 1569 (museo Prado)





02-04-2003 17:13:00
simplicidade




dois botões azuis...

(tu e eu)

presos num universo cristalino
...


01-04-2003 2:28:00
As Três Pérolas


01-04-2003 2:26:00
amor

Querosene incandescente,
Fissão de urânio – plutónio,
Atómico – nuclear reactor;
Sempre e sempre presente,
No sangue, linfa, neurónio,
Esta pulsante lava de amor;
Monolítico gelo cortante,
Silenciosa lágrima fria,
Voz, alma, olhar;
Crescente e tão gigante
Este sentimento que porfia,
De sem nada, amar e amar...
Esconder e mentir,
Fazer rir, fazer chorar,
Sem idade, sem corpo, sem alma,
Dar o que veio e que há-de vir
Sem mais nada importar
E, cair ao mundo, em sua palma.

E agora, sem rimar;
Algo que me faz Sol e lobo,
Água, sombra, abafo, suspiro,
“Bom-dia bebé!”
“Querido velhote”
“Amo-te, pateta!”
Rosa salpicada de eritrócitos,
Em vasto prado solarengo,
Violinos, pianos e Liz Fraser,
E neste tão grande em tão anão,
Cair morto, num sorriso,
Para ti, mundo de saprófitos,
Para ti, erva, terra, Deus,
Para ti criança, Criança,
Que de mim crescerás...


08 fevereiro 2000


01-04-2003 2:25:00
beleza
A áurea bola solar,
Pintada a lápis de cor;
O vento em tuas vestes,
Água do regato a cintilar,
Mãe galinha e pintainho
O A, o M, o O, o R, amor,
O teu choro junto ao lago,
O parque d’esbeltos ciprestes
O nocturno silêncio do vale,
Velhice d’avozinho,
A tabuada do Sr. Professor,
Teus lábios, qu’afago,
O negro da femme fatale,
Ah, ah, ah de perdição,
O menino, a vaca e o burrinho,
Rapazes da bola, sem joelhos,
Ão! Ão! Ão! Ão!
Neve, lareira, roca e linho,
Só, no mar e em teu umbigo
Aldeia de granitos e velhos,
Calos da tua mão,
As fintas do Luís Figo,
Minha mãe e seu colo,
O humilde sem tostão
O barão de papo cheio,
A falta de rima para o “olo”,
O “ai que tão feio!”...


11 fevereiro 2000


01-04-2003 2:13:00
elegância

Tua silhueta de pele e ossos,
4.ª classe e débil tabuada,
Entre velhas gordas e horas da cachaça,
Barraca na praça, venda de tremoços,
Braços cruzados, sob o xaile, parada,
E, o berro de teu silêncio, na arruaça,
Paz, frio, pérola branca,
Perdida na alvorada da feira franca;
O desconsolo calado, do rebento,
Erguido do chão, em carinho,
D’encontro ao peito, jovem mulher,
Davas tanto, que te tornavas vento;
Duas crianças, gémeas, sem burburinho,
Sós, entre multidão e ruído, sempre a crescer...


15 março 2000


28-03-2003 17:10:00


27-03-2003 12:15:00
lamento (de Rainer Maria Rilke)

e que te invade por completo

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Everything is far
and long gone by.
I think that the star
glittering above me
has been dead for a million years.
I think there were tears
in the car I heard pass
and something terrible was said.
A clock has stopped striking in the house
across the road...
When did it start?...
I would like to step out of my heart
an go walking beneath the enormous sky.
I would like to pray.
And surely of all the stars that perished
long ago,
one still exists.
I think that I know
which one it is--
which one, at the end of its beam in the sky,
stands like a white city...

por Rainer Maria Rilke


26-03-2003 1:56:00
autismo & idealismo
abordaste hoje noutro espaço , sobre a invulgar brandura das criações dos Sétima Legião, estas duas palavras: autismo & idealismo

fizeste-o por impulso de coice, como o dos garranos do monte, ultrajando os moscardos da carqueja e bosta.
admiras o autismo rural, o idealismo das serras e toda uma sabedoria que escasseia pelas metrópoles

por favor, abre as orelhas e o coração aos avós...

e assimila, como necessário,
o ficar de boca aberta, na cadência das frases dos anciões...


25-03-2003 1:09:00
porquê antoniologias
um espaço
uma voz, um ser e não ser
as palavras e as não palavras

olhos e mais olhos; todos os olhos. quero todos olhos descarnados, desretinados, descórneados nas palavras, nestas palavras

dos avós
hoje minhas não minhas
amanhã,

de quem as apanhar...

mu
ta
ção

antologia de ventanais
analogia a tudo,
do tremoço
a
cassiopeia
...


antoniologias,

por antónio,
regularmente


25-03-2003 0:55:00

lkllllljlk


25-03-2003 0:51:00

exper