APOLÓNIA TIMES    

Autor:
Paulo L

Email:
paulolourenzo@yahoo.com

cultural bullet10-04-2003 14:23:00
Às vezes tenho medo dele.

Fecho dilingentemente a porta do quarto, para não haver surpresas. Algumas vezes sonho que ele está ali, ao pé da minha cama e segreda-me coisas horriveis. Acordo e não está lá ninguem. Falo do meu colega de apartamento, um dos homens mais estranhos que já conheci. Às vezes lembra-me o Moriarty do Sherlock Holmes, ou o nº1 da Spectre nos filmes de Bond. Outras vezes o Joker ou uma versão particularmente cínica do Mickey Rourke. É temperamental, irascível, megalomaníaco. Diverte-se com uma metralhadora de pressão de ar a furar sacos de compras de velhinhas. Faz o middle finger a polícias e adora entrar em cafés a gritar "As vossas mulheres estão a gemer e não são vocês que estão na cama!!"

Já o vi falar em línguas mesopotâmicas, invocando divindades terriveis.
Já o vi rir-se a ler um livro de Heisenberg.
Já o vi seduzir as esposas dos patrões dos amigos.

Uma vez disse-me que tinha descoberto o segredo do Universo. E o que fez ele com tal descoberta? Levou-o aqui acima à Feira da Ladra e trocou-o por uma gravata suja e mal cheirosa, que um cigano da Musgueira lhe tinha garantido ter pertencido a Martin Heidegger.

É louco.

Mas...
É um génio.

E escreve melhor que um assessor de imprensa do Tony Blair. Escreve a jogar roleta russa. Escreve com tinta ácida e usa palavras malditas que faz com que mães tapem os ouvidos aos filhos antes que eles degenerem em junkies de olhos esbugalhados.

Ora o meu amigo escreveu uma peça. Um primeiro esforço na arte teatral. Um prenúncio de algo que ainda não consigo definir, mas seja o que for, é assustador. O homem é bom. E pronto.

Acho que deviam ir ver. Está no Trindade. Chama-se "POSSE". Em cena até â próxima semana. Vão ver e convidem amigos.



P.S. É que assim, pode ser que ele nunca mais espete morcegos à porta do meu quarto, nem me leia romances eróticos proibidos do século XIV às duas da manhã (em latim)


deviam ter-me perguntado, acho eu03-04-2003 0:25:00
Se os tipos não fossem tão orgulhosos e me tivessem perguntado, eu tinha-lhes dito como poderiam ter ganho a guerra, rapidamente, sem grande esforço, e ainda com duas super-vantagens:
- Ninguém morria
- Tinham lucro

A tática é muito simples, basta fazer aquilo que os americanos sempre fazem. Nem percebo porque é que não usaram essa tática desta vez.

Começa-se por um bombardeamento intensivo de McDonald's. Não estou a falar dos hamburgers, mas de McDonald's mesmo, de restaurantes. Uns quantos lançados de pára-quedas em Bagdad, Bassorá e os sítios mais importantes. Estes bombardeamentos seriam sempre acomapanhados de misseis de Coca-Cola, lançados estilo "carpet bombing".

Após uns dias disto, a invasão terrestre:

Quatro colunas de blindados Nike, duas do Norte e duas do Sul, acompanhadas por meia dúzia de brigadas rápidas da Warner Brothers. As brigadas Nike avançam, destroem tudo no caminho, vendem os ténis aos adultos e poem os putos a trabalhar em unidades pré-fabricadas. De 50 em 50 quilómetros, largava-se uma unidade WB que montava logo uma Mega Store a vender Bugs Bunnies, Star Wars, etc. Estas unidades são muito importantes porque são simultaneammente responsáveis por manter o território conquistado e por iniciar a campanha psicológica.

Entretanto, quando se chegasse aos arredores de Bagdad, as colunas Nike recebiam o apoio de mais duas divisões GAP (que começavam a vender street wear baseada em camuflados) e uma divisão Calvin Klein (com a nova fragrância "Fundamentalism")

O primeiro encontro com a defesa da capital seria auxiliado pela guerra psicológica: helicópteros de ataque com lança-projécteis que disparam 2000 CDs por minuto. Uma combinação letal de Eminem e Shakira deve ser mais do que suficiente.

Finalmente, com a capital tomada, os palácios seriam restaurados e transformados em casinos, Bagdad seria limpa e abrilhantada e teríamos uma Nova Vegas no meio do deserto mesopotâmico, um hotel chamado "Saddam's" com uma gigantesca estátua do ex-ditador sorridente, a rodar, com olhos laser, a convidar clientes, de Amã a Telavive, do Cairo a Teerão.

E a guerra estaria ganha...


comes e bebes30-03-2003 14:26:00
Em todas as Academias militares da América, alunos e professores agitam-se, curriculos são reformulados e novas ideias são acrescentadas aos programas das escolas de oficiais.

Uma antiga ideia estratégica, já esquecida, foi recuperada dos compêndios poeirentos da História e brilha hoje novamente. E todos os professores repetem essa ideia aos futuros comandantes e estrategas dessa grande nação:

NUNCA, MAS NUNCA, MANDAR DIVISÕES PARA A FRENTE DE COMBATE SEM SE LEMBRAR QUE OS SOLDADOS PRECISAM DE COMER E BEBER

No fundo é um erro aceitável dos americanos. Ficam entusiasmados com a tecnologia, ganham erecções ao pensar em armas inteligentes, e depois esquecem-se que o tanque e o heli ainda têm que ser conduzidos por esta fraca máquina de sangue e merda, que precisa de comer, beber, e ir à casa de canho. É aceitável. Os alemães cometeram o mesmo erro quando invadiram os russos, e também esqueceram-se da gasolina e tiveram que ficar uns dias à espera do reabastecimento. E afinal, a Segunda Guerra foi apenas há...uns 60 anos, logo estas lições ainda são um bocado frescas demais.


As above Mexico, so below Canada27-03-2003 10:09:00
E eis que um dia chegámos a casa e nada funcionava. Sistemas em baixo. Isto após passar um dia a ouvir, em cafés, que havia aparelhos eléctricos a parar de funcionar sem razão. Micro-ondas, máquinas de tabaco, antenas de tv, etc.

E chega-se a casa e o computador está apático, não fala, não se ouve. Parece quase o Mourinho quando ganha um jogo.

Por isso, queria apelar aos nossos irmãos americanos e dizer-lhes: era tudo uma brincadeira. Não, não estava nada a falar mal de vocês. Não, nada disso, a guerra...a guerra.... pronto, a guerra é vossa, a gente faz aquele papel de amigo que assobia no quarto ao lado enquanto vocês fazem ranger as molas da cama e, pronto, não se fala mais nisso.

Vá lá, virem lá o vosso satélite para o outro lado, que a gente precisa mesmo do computador e de mandar uns e-mails prós amigos que pensam que a gente já não lhes liga e essas coisas todas.

pleeeaaseee.....


Fuck, we're at war!! (I'll get a Coke and some pop corn)21-03-2003 10:24:00
A long, long time ago, in a galaxy far, far away...

Ok, várias coisas a dizer sobre a IIGG (Segunda Guerra do Golfo):

1) É interessante, por acaso, ver que a cultura que nos oferece os valores da rebeldia e do herói que luta contra o império age ela própria como esse império. É como se o Luke Skywalker tivesse tomado o lugar do Imperador e mandasse os rebeldes invadirem todos os sistemas. Quase que podemos ouvir Luke a começar a ter problemas de respiração e asma. Pois, se calhar é genético.

2)A parte cínica é também a parte engraçada: "Operação Liberdade Iraquiana". Ouviu-se agora na rádio que já há cerca de 240 mortos entre os aliados. Estou mesmo a ver no meio dos combates os tipos a gritar "Parem lá com isso!! Nós estamos aqui para vos libertar, idiotas!! Até trouxemos 5 porta-aviões connosco para garantir que vocês se tornam livres!!"

3) Numa guerra lêem-se mais jornais, vê-se mais televisão. O que é bom para o mercado publicitário. Ainda mais porque nós não participamos na guerra, o que quer dizer que ela está lá longe, não nos afecta e podemos a continuar a comprar os telemóveis de última geração. Publicitários, atenção.

4) Não tenho aqui televisão, e até gostava de ter para ver a guerra REAL que se está a passar, aquela que interessa: Carlos Fino versus Paulo Camacho, versus Rodrigues dos Santos, versus os outros gajos que lá estão. Isto prá malta que veio das áreas da Comunicação é ouro. Tinhas razão, Baudrillard, a simulação, a simulação. A mensagem é "Sim, está tudo fodxxx mas fomos NÓS os primeiros a dizê-lo. Olhem, olhem, as bombas, o terror. Vêeem, quem é que tem as boas imagens, quem é?" Não se poderá pedir aos aliados, agora que nós até somos uma potência, que se enviem umas bombas de propósito para cima dos jornalistas? Só para os assustar...

5) Meus amigos, olhem à vossa volta e aproveitem: vocês vivem no Matrix. Estamos em guerra. Mortes, feridos, Saddam, bombas, guerra, mortos, Bush, aviões, smart bombs, Apaches, mortos, Scuds. Estamos a ser mais bombardeados que os Iraquianos. Acabei de criar o conceito de "Semiotic Carpet Bombing", ou seja, a cambada de simbolismos que nos atingem incessantemente estes dias. E contudo...E contudo vemos isto tudo na televisão, nos restaurantes enquanto comemos cozido à portuguesa, na rádio por 5 minutos antes de mudarmos para o homem que foxxx o cão, no Colombo enquanto tentamos discernir questões fundamentais como "afinal como serão os óculos de Sol da moda neste Verão"? Vivemos no meio de uma pintura surrealista, em que todos nos lembramos de guardar um espacinho no nosso coração para os pobres iraquianos e para a guerra. E tentamos não ligar muito àquele tremor que nos percorre a espinha quando vemos as imagens, aquela sensação erótica, porque vejamos: a guerra é sensual. Toda a gente se excita a ver os aviões a descolar dos porta-aviões, a ver as descrições das novas armas, a ver tanques a correr pelo deserto a 150km/h. Mas vamos assumir esta dualidade e a nossa fraqueza e aproveitemos a sensação. De qualquer maneira é temporário. Daqui a 15 dias já teremos quaisquer coisas mais comezinhas. Os frangos, o Cruz, o jogo da Selecção. E nessa altura já Bagdad estará terraplanada e a inquisição tentará tirar as Mil e Uma Noites da História da Literatura. Never happened.


6) Sugestão para reportagem na SIC Fémea: O que usar na guerra? As cores, os tecidos, a camuflagem. Porque sim, a guerra tem estilo, tem moda, aqueles uniformes pastel, até pintam as armas para as camuflarem. Não é como o pessoal que prega pela paz que são uns freaks mal vestidos. Mal vestidos, quer dizer, são mal vestidos de propósito, que as roupas freak custam muita massa. Mas pronto, é sempre a mesma coisa, os mesmos tons, as pitas que vão pras manifs com Zara e Bershka...Não, a guerra é que é. O look 'libertador' é que vai ditar as tendências.


de volta17-03-2003 1:36:00
Bem, tive de férias.

Estava farto, não conseguia escrever nada de jeito, tenho a gata com o cio e colegas de apartamento com problemas existenciais.

Achei melhor parar, por as coisas em ordem. Agora voltei. Então, o que é que se tem passado no mundo?


Publicidade Malandra07-03-2003 15:56:00
C.F.I.P. - Ficheiro nº3: TVI - Publicidade Malandra

O C.F.I.P. gostaria hoje de reconhecer a coerência que a estação TVI apresenta entre as suas produções e a sua comunicação. É certo que a TVI fez uma grande aposta na ficção nacional, e divide a sua produção em várias áreas, sendo uma das áreas principais a "área idiota". Tem sido certamente uma das mais recompensadoras e a TVI exerce aí toda a sua mestria. É o já famoso "Paradigma Anjo Selvagem", objecto de vários estudos e inclusive tema de tese de mestrado do Prof. von Dummkopf na Universidade de Friburgo.

E eis que mais um produto deste paradigma nos chega às mãos, "Coração Malandro". Sem querer fazer a crítica aos méritos da série em si, pois está fora do nosso âmbito, não poderíamos contudo deixar de elogiar a continuidade existente entre uma série idiota, com argumentos idiotas, piadas idiotas, e a sua comunicação, a sua publicidade realmente idiota.

Com certeza já todos vimos no metro o cartaz com a fotografia do protagonista e o fabuloso headline:

"Cabeça de passarinho, coração enorme"

Teria sido interessante, até por razões pedagógicas, filmar a reunião de brainstorming dos criativos desta peça. Depois distribuíamos a cassette pelas imensas salas de aula deste país onde adolescentes mascam pastilha elástica e sonham com o dia em que serão tão famosos como o Edson e serão convidados para todas as festas do Lux e até já podem ver o logotipo: "Armindo Comunicação" ou "Anabela Design".

Mas, como disse, tal não foi possível. Mas o C.F.I.P. não desistiu. Fomos ao edifício da agência em causa, infiltrámo-nos e vasculhámos os cestos dos papeis à procura de rastos, de pistas. E conseguimos algumas. Podemos agora fazer o historial de tão esplendoroso headline:

"Tem tudo grande, menos o QI";

"Cabeça de pombo, coração de boi";

"Cérebro de pardal, coração de albatroz";

"cérebro bué de pequeno, coração bué de grande"

Não deixa de ser emocionante, e até algo comovente vermos o processo criativo a desabrochar, a evoluir.

Um caso a recordar.

C.F.I.P. - Consumidores sim, otários é que não


Carnaval (II)05-03-2003 12:49:00
Já acabou?

Já podemos sair?

Já foram todos os desfiles, todas as festas, já toda a gente atirou balões de água e se travestiu?

Já rimos todos com os bonecos com as cabeças dos políticos, já entrevistaram o Alberto João, já fomos a Torres Vedras, Loulé e Ovar, ver as menininhas a desfilar quase nuas ao frio (depois admirem-se de escândalos e do outro e ...) , e os velhos a querer enganar o reumático, já entrevistámos o pessoal a dizer que “isto é tradição, isto é português” enquanto por trás passam as “escolas de samba” com ritmos tão portugueses, tão tradicionais?

O José Rodrigues dos Santos já disse a piada costumeira?

O Roberto Leal já se foi embora?

Já podemos guardar as máscaras de esferovite, as serpentinas, os confetes, as mamas falsas e os pirilaus das Caldas?

Uffff.....

O Carnaval é uma época tão linda.

Ainda bem que é só uma vez por ano.

Devia ser só em anos bissextos.

Eu digo-vos a única coisa gira que isto tem: é que nos últimos tempos parece que passamos o tempo todo a ouvir música brasileira. Todos os bares e discos põem música brasileira, primeiro porque não têm imaginação para escolher outra coisa, depois porque pensam que "atrai clientes". E ainda por cima como temos tido a nossa invasão de além-Atlântico, todos aqueles que vivem em prédios onde haja brasileiros sabem que "não é mole, mermão!" Netinho foi só o começo.

Mas no Carnaval nós vingamo-nos, eh, eh, eh

VEJAM, SEUS GUARANÁS! Vejam o que é viver neste país! Vejam o sofrimento! Isto é o nosso Carnaval!! Isto!!! Ovar! Torres Vedras! Pensavam que era só mamar, né? Não é não, experimentem lá "curtir o Carnaval" neste vosso país irmão e digam lá que não ficam cheio de saudades...

Digam lá que não preferem mil traficantes de droga armados até aos dentes a isto....

eh, eh, eh...


Carnaval (I)04-03-2003 13:25:00
Este ano mascarei-me de "Intelectualóide Desempregado". Algo de simples. Está a ser um sucesso, as pessoas acreditam mesmo e riem-se de mim quando passo na rua.

É um progresso, esmerei-me este ano, se bem que a máscara do ano passado - Jovem licenciado desesperado porque tem quase 30 anos, está desempregado e o seu nivel de auto-estima parece o NAsdaq - também não foi nada mal.

Enfim, espero para o próximo ano conseguir desenhar qualquer coisa do estilo - Jovem trintão atraente e culto, passada a crise pós-adolescência e ainda longe da meia-idade.

cheers


Exmo. Presidente da República28-02-2003 12:07:00
Exmo. Sr. Presidente da República,

Escrevo-lhe como cidadão preocupado e sei que vai ouvir o meu apelo, que apesar de isolado, tenho a certeza que expressa a ansiedade de centenas de milhar de portugueses. Por favor encare isto como uma questão de Estado, do meu próprio estado de saúde e do outro, daquele a que Vª Excla. preside.

Eleve-se acima das questões partidárias, coisa que eu sei que é capaz porque uma vez ou outra já teve coragem de apertar os testículos ao seu próprio partido.

O que me traz aqui é uma infiltração. Não uma infiltração nas paredes e não a célebre infiltração comunista de outros tempos. Falo da infiltração mental, do vírus cerebral que cresceu entre nós como um fungo venenoso na última década e que agora começa a tomar proporções preocupantes. A infiltração na música.

Ultimamente ouve-se falar muito da música portuguesa, que a música está a morrer. Chamo a vossa atenção para QUEM é que anda a dizer isso. Para aquelas pessoas com aqueles nomes algo ridículos, com penteados que fazem doer os olhos, com roupas que só me dá vontade de ir ali a Sete Rios, tirar os animais todos e pôr lá estes e convidar os miúdos a atirar-lhes com bostas, esta gente com aquelas músicas cujos títulos são sempre “És a minha paixão”, “Quero-te”, “Vem amar-me”, “Deixaste-me sozinho, sua pxxx” e outras pérolas do género.

Vª Exla. Por acaso não está familiarizada com o que é um vírus, como actuam no nosso corpinho? Pois em traços largos eu explico-lhe. Um vírus é um pedaço de DNA com um invólucro à volta. O vírus penetra no nosso corpo, instala-se e depois não faz outra coisa senão substituir o DNA das células pelo dele e reproduz-se. Reproduz-se a uma velocidade assombrosa, usando para isso os recursos das células que o acolhem. Logo, vai matando-as neste percurso. Só que a certa altura ele matou tantas células que o próprio organismo morre. Se o vírus não tiver contaminado outra pessoa, teoricamente morre também com o seu hospedeiro. É a única fraqueza do vírus.

E Sr. Presidente, esta gente de que eu falei é uma gripe na música nacional. Nos últimos anos reproduziram-se como coelhos a usar Viagra. Já nem sei quais são, quantos são. Sei que começa a haver demasiadas pessoas na rua vestidas como eles, que todos os putos de vinte anos querem fazer madeixas loiras e treinam o modo sexy de agarrar num microfone, que há uma vintena de mongolóides algures numa cave escura a escrever letras para as músicas desta gente (isto eu depois confirmo-lhe mais tarde), e agora, que eles sugaram o sumo das nossas célulazinhas cinzentas e vêem que o nosso organismo colectivo está a rebentar pelas costuras, VÊM QUEIXAR-SE E GRITAR QUE “É O FIM DA MÚSICA PORTUGUESA!”

É o vírus, Sr. Presidente, é o vírus que sente o seu fim. Mas nós não lhes vamos ligar, Sr. Presidente. Nós sabemos o que eles são e vamos eliminá-los, Sr. Presidente. Tenho um plano que quero partilhar consigo:

A Madeira.

A Madeira é só problemas. Estamos fartos do Alberto João e pelo que me disseram já ninguém liga à Madeira a não ser quando há o Rally, altura em que todos os betos da Madeira juntam-se como lagartos ao Sol nas curvas do percurso a beber margaritas, a discutir futilidades e a levar com a poeira. Aquela gente também não é normal, Sr. Presidente. A minha proposta é: LEVÁ-LOS A TODOS PARA LÁ!

A todos. Agarramos nos Axels, nos Bandeiras, nas Santas Marias, nos Anjos, no Melão, no outro que não me alembra agora o nome, na Romana, na Rute, (podemos cá deixar a Claudisabel porque sempre que ela vai à tevê a malta quer ver se as mamas saltam cá pra fora ou não), em todos eles e deportamo-los! Para a Madeira. E de lá não os deixamos sair, declaramos a zona de quarentena e só vamos lá daqui a vinte anos com fatos de guerra química. E poderemos respirar outra vez. Deixamos cá só o Emanuel, a Ágata e o Toni Carreira. Como vacinas. Para nos lembrarmo-nos. Para ensinarmos aos nossos filhos.

Sr. Presidente, o problema da música portuguesa é simples de entender, e a resposta pode ser encontrada numa música dos Smiths com 20 anos: dizia aquele pervertido do Morrisey para “enforcar os disc jockeys” porque “a música deles não me diz nada sobre o que é a minha vida”. Tá explicado.

Muito agradecido pelo seu tempo,

Cumprimentos à esposa

PL


a ressaca26-02-2003 15:09:00
Comprei hoje o jornal num daqueles quiosques onde se juntam os velhotes para discutir as primeiras páginas. A primeira página do jornal diz “negócios escuros na RTP”.

Comentário de um dos analistas políticos presentes: “É uma bronca a cada dia!”

Efectivamente é esse o sentimento geral, não é? A cada dia um novo escândalo, uma nova investigação. É interessante porque aqui há uns quantos anos houve também uma onda destas, na altura protagonizada pelas reportagens do “Independente”. Mas a presente moda é diferente num pormenor: a maior parte dos casos não tem directamente a ver com o governo. Tem a ver com estruturas ou pessoas consideradas “insuspeitáveis”, ou pelo menos, “intocáveis”.


Mas até que ponto esta onde indicia um agravar do índice de corrupção no país? Pessoalmente até acho que não existe esse agravar. Simplesmente descobrem-se agora coisas que já acontecem há anos, que já são práticas rotineiras, que já fazem quase parte da cultura nacional. Vamos lá, meus amigos, quem de nós não fala destas coisas na sua conversa de café? Não é só o factor C para conseguir emprego, são empresas a pagar luvas para contractos, ligações perigosas em festas na 24 de Julho, obras autárquicas à revelia da opinião dos munícipes, centros comerciais licenciados e construídos enquanto o diabo esfrega um olho, etc, etc.


Até a pedofilia, não? Quer dizer, parece que de repente alguém abriu a porta de algum manicómio e os pedófilos espalharam-se como uma epidemia de gripe. Mas não, mas não, sempre estiveram aí, as criancinhas sempre sofreram neste nosso Portugal e basta retornarmos às nossas aldeiazinhas de origem para ver que casos destes eram a norma, não a excepção.


Não se assustem, isto é apenas a ressaca. Tivemos a festa, agora vem a ressaca. Estamos com dor de cabeça e certas visões dão-nos a volta ao estômago. Os brandos costumes escondiam brandos vícios. Talvez não tenhamos nenhuma Enron mas estamos cheios das nossas pequeninas Modernas, e RTPs e SPAs e outras que tais que gota a gota sugam a seiva deste jardim.


a dor, a dor...21-02-2003 12:33:00
Desde a sua fundação, o C.F.I.P. (Comité para a Fiscalização da Inteligência na Publicidade) tem recebido inúmeras mensagens e até pedidos de auxílio contra ataques semiológicos à inteligência.
Queríamos deixar aqui duas respostas.

Ao Sr. Pedro, motorista da Carris, queremos dizer que infelizmente não o podemos ajudar. O Sr. Pedro reparou num cartaz que está colocado perto da estação de autocarros da Pontinha, um cartaz que diz “Clínica Dentária Água Verde”. Caro Sr. Pedro, compreendemos perfeitamente a sua indignação, mas aqui não se trata exactamente de publicidade ofensiva, trata-se de um nome para uma clínica que deve ter sido escolhido pelo mesmo tipo de pessoas que pendura nossas senhoras fluorescentes no retrovisor e ouve Toni Carreira. Não podemos fazer nada contra quem escolhe um nome destes para um consultório, o único conselho que lhe damos é – pense duas vezes antes de lá ir.

Mas queremos também responder à Dona Odelinda, que vive na Tapada das Mercês e trabalha em Lisboa. Diz-nos ela que se sente extremamente ofendida por um cartaz que recentemente apareceu no Metro. Investigámos de imediato.

E de facto, que dizer? Aparentemente, falar ao telemóvel deve não só comportar riscos de cancro, mas deve doer. DOER à séria. Pessoalmente nunca o notámos, mas ao ver o novo cartaz da campanha do Trifene 200, ficámos preocupados. Um cartaz que mostra três jovenzinhas a falar alegremente ao telemóvel. Nem sequer estão a falar umas com as outras, falam ao telemóvel não se sabe com quem. E a legenda fatal: “estas mulheres sabem estar...sem dores”

Porque falar ao telemóvel hoje em dia é doloroso. Podemos dar jeitos ao pescoço, o braço começa a doer se ficamos lá muito tempo, sentimos as tais radiações de que eles falam penetrar-nos pelo ouvido interno e chegar ao nosso hemisfério cerebral onde começam a actuar como brocas de ultra-sons. Ou pior, pode alguém querer roubar-nos o tele e dar-nos um puxão no braço e aí fica mesmo a doer, se calhar até ficamos com as articulações torcidas e passamos a andar como um egípcio.

Mas graças ao Trifene 200, tudo isso ficará para trás e todos poderemos voltar alegremente a falar ao tele...sem dores de espécie alguma. Temos que agradecer a esta marca o lembrar-se destas situações em que nós não nos apercebíamos de que “aquilo dói!” Como no cartaz anterior víamos uma jovenzinha com um violoncelo no meio as pernas, mas graças ao velho Trifene, aquilo não doía. E é preciso mesmo ser muito insensível para não perceber a dor lancinante que significa levar com aquela espécie de violino com esteróides no meio das pernas. É inumano! Por causa disso é que há tão poucos tocadores de violoncelo. É preciso coragem.

Cara Dona Odelinda: dizia que ultimamente andar no Metro é uma tortura porque a qualidade da publicidade “até dói”. O único conselho que lhe podemos dar é que só por esta vez, acredite nos publicitários, compre lá um trifenezinho na farmácia e ande no metro pedrada, que nada disso importa.

C.F.I.P. – Consumidores sim, otários é que não!


zen à terça- feira18-02-2003 15:28:00
Acabar a vida num mosteiro, no alto de uma montanha, de onde posso ver espalhada a calma paisagem japonesa, lá em baixo.

Às vezes penso nisso, em fechar a porta atrás de mim e dizer goodbye muthafuckas.

Lembrei-me disto hoje porque li num livro uma frase de um mestre zen:

"Pensar que não vou mais pensar em ti, é ainda pensar em ti. Vou então tentar não pensar que não vou pensar mais em ti."

Se sentem que o vosso cérebro foi de repente sugado por um motor de avião, i know the feeling

acho que boa parte da tragédia da nossa condição humana está contida nessa frase.


memórias de Giger (vão a net ver quem é, se não sabem)17-02-2003 17:36:00
Estou vestido com um uniforme especial que me cobre dos pés à cabeça. Tenho uma viseira ao nível dos olhos, e um pequeno filtro ao nível da boca, que é na verdade um dispositivo anti-bacteriológico. Não ouço nada a não ser a minha respiração. Estou isolado do ambiente. Na minha mão está uma arma que parece uma varinha mágica, dispara 3 mil lâminas de aço por minuto, funciona com ar comprimido. Acoplada ao cano está uma lanterna, necessária porque não é boa ideia ligar a luz.

Estou sozinho. Como sempre. Esta missão só pode ser efectuada por homens que mantenham o sangue frio quando vêem coisas capazes de assustar até o Jorge Coelho. Ou homens que não se assustam quando vêem o Jorge Coelho.

Avanço passo a passo pelo corredor escuro tentando fazer o mínimo de barulho possível. Guio-me apenas com a suave luz da lanterna na arma. Focada mas fraca, para não alertar o meu alvo.

A minha respiração acelera ligeiramente à medida que me aproximo do alvo. Não consigo evitar fazer barulho. Os meus pés estão a pisar em coisas que não identifico, o som é de cascas de ovos a partirem-se. Não me atrevo a olhar para baixo.

Finalmente chego à pequena divisão. Ajoelho-me e com o feixe de luz tento percorrer todos os cantos escuros, para saber o que se esconde. As sombras parecem vazias, mas não oferecem confiança.

Não posso ficar sempre aqui, tenho de avançar. À minha direita vejo o alvo. Fechado como um cofre, um zumbido grave, afirmativo mas discreto. Como se estivesse à minha espera. tenho que ter coragem de abrir a porta. Lentamente coloco a mão sobre o batente. Começo a ouvir um som ritmado. Apercebo-me que é o meu coração a acelerar.

Com um puxão violento, abro a porta do frigorífico.

Aponto a arma, pronto a cuspir um pesadelo de giletes se algo se mover. Mas nada se mexe. Saco do meu analisador.

Nada de radioactivo. Vestígios de vida, contudo. Examino as várias prateleiras. Formas de pesadelo descansam no frio infernal. Parecem sorrir, deleitadas na sua estranheza de forma. Fluidos viscosos pendurados nas grelhas, experiências químicas de cheiro nauseabundo às quais só um cínico chamaria de "sopa". Emanações gasosas provêm de ovos fétidos, produtos de algum animal já extinto. Antigos pudins contaminam agora os outros alimentos com a sua cor agridoce. Vida, sim. Mas felizmente, parece que nenhuma destas formas evoluiu o suficiente para saltar-me à cara e agarrar o meu capuz asfixiando-me ou arrastando-me para dentro do frigorífico. Estou a suar de tal maneira que tenho vontade de tirar o capuz, mas não me atrevo.

Tenho que trabalhar. Retirar tudo daqui com cuidado. Lavar o frigorífico. Desinfectá-lo. Colocar os resíduos em pequenos contentores herméticos. Colocar de volta apenas aquilo que seja identificável e não tenha cheiro.

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Às vezes, a vida numa comunidade obriga-nos a sacrifícios para que a sobrevivência seja possível, sabem?


O país de Poirot16-02-2003 11:50:00
Os media em Portugal vão ter um prato cheio nos próximos tempos, explico-lhes porquê.

No meio de tanto falatório e gente a gritar, está a ser interessante ver elevar-se bem alto uma voz fininha mas firme, a mandar vir com os grandes. Falo da Bélgica.

A Bélgica é daqueles países que a gente nem sabe porque existe. Ninguém pensa na Bélgica a não ser que saia aquela pergunta no Trivial: "O que é que há entre a França e a Holanda?"

Nós conhecemos Bruxelas, sim, estamos sempre a ouvir falar nisso. Mas não sabemos bem a localização de Bruxelas, pensamos que ficará num limbo qualquer, uma terra não reclamada por ninguém. Mas não, fica na Bélgica. E a Bélgica, surpresa das surpresas, é membro da NATO.

Eis que, no meio das vozes ribombantes da França e da Alemanha, que soam em conjunto algo surpreendentemente, surge a pequena voz da Bélgica, como se fosse um caniche raivoso, a arreganhar os dentes ao bruto trans-atlântico.

Imaginemos o que se passa na Sala Oval, quando George W. vê os seus planos encalharem em mais este obstáculo:

- Powell! Tell me, what the hell is a...Belgium?

- It's a country, Mr. President.

(a partir daqui apresento a versão traduzida para benefício dos nossos leitores não familiarizados com o inglês texano)

- E onde é que fica isso?

Colin vai com um alfinetinho até ao mapa que está na parede.

- É...É este pontinho aqui, Sr. Presidente.

- O meu rancho é maior que isso! Mas quem é essa gente? Quem é que manda aí?

- Bom, é uma monarquia, Sr. Presidente. O país está praticamente dividido em dois, metade francófona, metade flamenca.

- Eu pensava que flamenco era uma dança!?

- Também é uma língua, Sr. Presidente. A capital é Bruxelas.

- Bruxelas não é uma hortaliça??

- Também, Sr. Presidente, aqueles rebentos.

- Mas que tipo de pessoas são? O que é que eles gostam? Comem hamburgers?

- Bem...Gostam de banda desenhada, Sr. Presidente.

- Comic books? Ha, mas isso eu também gosto! Qual é o herói deles?

- Bem...O maior herói deles é um rapazinho magricela, louro e de topete, chamado Tintin.

- "Tintin"?...

- Sim, Sr. presidente.

- Mas...Mas como é a bandeira deles? Qual é o símbolo nacional?

(Parêntesis: George W. é texano. Os texanos têm vários símbolos, entre eles o Colt 45, poços de petróleo ou um negro enforcado)

- Bem, sr. presidente... O símbolo da Bélgica é...uma estátua de um bebé. Numa fonte. A urinar.

(É difícil saber como um texano processa esta informação)

- Não podemos anexá-los ou assim?

- Em teoria poderíamos, sr. presidente. Se invadíssemos a Bélgica, o resto da Europa nem iria notar. Mas Bruxelas é simultâneamente a sede da Comissão Europeia.


Vamos deixar os donos do mundo entenderem-se entre si, mas fiquemos atentos porque isto "vai dar molho".

Entretanto, para nós, a Bélgica ainda poderá estar carregada de outro simbolismo. Eu até nem sou muito supersticioso, mas vou dizendo "io no creo en brujas, pero que ganan dinero, ganan dinero, mira a Maya".

Os nossos jornais e tvs andam um bocado confusos para saber a cada dia qual a notícia de destaque. Iraque, pedofilia. Saddam, Carlos. Bibi, Bush.
Talvez a ligação que permita a ponte seja feita justamente pela Bélgica. O país que nos deu tantos e tão sumarenteos escândalos pedófilos nos últimos tempos. E que de facto tem aquela fontezinha com o bonequinho.

Parece-me que deveremos ficar atentos. O Maneken Pis parece estar a piscar o olho a Portugal, enquanto mija em cima da NATO.


Amor e uma consola14-02-2003 15:15:00
"Meu Amor, quero que todo o mundo saiba que te amo mais que tudo no mundo, Carlos. Quero que voltes a namorar comigo - Raquel, Amadora"

Coisas destas passam hoje ininterruptamente nos rodapés daquele tipo de programas muito especial, os "programas da tarde" da nossa televisão que, houvesse alguma justiça no mundo, já teriam sido alvos de resoluções da ONU.

Estas frases, além de me fazerem sentir uma enorme angústia existencial e lembrarem-me de que tenho algures numa gaveta uns folhetos que mostram como é saudável viver na Islândia, fazem-me pensar sobre essa instituição tão estranha que se chama Dia dos Namorados.

Normalmente, a nossa sociedade quer que pensemos neste dia a preto e branco. Ou tem, ou não tem. Ou está muito feliz, ou está muito triste. E na televisão só vemos imagens de casalinhos de mão dada, como se nunca víssemos tal fenómeno, coisa de espantar.

Mas se andarmos pela rua vemos que a verdade tem mais cores do que a Elizabeth Taylor tem divórcios.
Pois vemos que há mulheres que "têm" mas perguntam-se se vale a pena ter, porque ele pensa mais na Playstation do que nelas, ou nem se lembra da data (penso que a minha namorada deve estar neste grupo); vemos homens que também "têm" e que hoje acham que isso é uma chatice porque lá vão ter que ir comprar umas flores ou um pechisbeque qualquer, não que isso tenha qualquer utilidade ou razão, mas porque sabem que se NÃO comprarem vão meter-se em sarilhos, e o que a gente quer é uma vida sossegada.

E há também aqueles (estes são poucos) que andam com um ar muito sonhador, não exactamente melancólico, como se lebrassem algo bom no passado, sofrendo ao mesmo tempo a dor de não ser presente. Esses são os que "não têm" mas não se importam, porque estão numa fase em que estão melhor assim. E assim têm alguns motivos para sorrir.

Porque no fundo, mesmo aqueles que "têm" e estão felizes, odeiam o dia. Parece que coloca um tipo de pressão qualquer, desnecessária. Se as coisas já estão bem, porque hei eu de fingir que hoje é algum dia diferente? Se de facto FÔR diferente...então algo não estava bem.

Podem perguntar vocês: então em que categoria é que eu me encaixo?
BICHO DO MATO

Estou farto deles todos!

Vou já mandar um sms para a tvi a dizer
"Meu amor, o dia em que assaltámos o banco juntos foi o mais feliz da minha vida! Gostei muito do sexo no meio das notas. Estou em Acapulco ansiosamente à espera que te soltem por bom comportamento. Amo-te - Anabela, Cova da Piedade"


olhou para o seu cérebro ultimamente?13-02-2003 15:53:00
Tenho a honra de apresentar a primeira actividade do Ano Pornográfico Internacional 2003. Trata-se na verdade da fundação do C.F.I.P. – Comité para a Fiscalização da Inteligência na Publicidade.

Este Comité vem suprir uma necessidade essencial da sociedade portuguesa que vive à mercê do bombardeamento informativo causado por essa espécie de terrorista fanático que são os chamados “publicitários”. Deveriam ser todos deportados para alguma prisão militar na Ucrânia e sodomizados regularmente. (Não, é melhor não, que alguns deles até….Bem, esqueçamos isto). Eu, felizmente, tive a presença de espírito para escapar a tempo a este terrível destino, após quase um ano enfiado num campo de treinos a comer o pão que o saddam amassou. Hoje, vi que prosseguia o caminho errado e quero ajudar os meus irmãos a precaverem-se contra estas acções que representam uma verdadeira guerra semiológica cujas vítimas são os nossos neurónios.

A minha opinião é que aliás, “há muitas e boas razões para protestar”. É graças ao engolirmos todas aquelas tretas, (como num blow job colectivo mental) que esses senhores ganham o dinheiro para comprar aqueles ténis esquisitos, as camisolas vermelhas justas, e os penteados que custam 27 euros em cabeleireiros lá ao pé de minha casa (sim, que eu bem os vejo). É altura de reclamar um tratamento um pouco mais digno e recusar liminarmente mais atentados à nossa inteligência.

Para isso nasceu o C.F.I.P. Os nossos inspectores encontram-se em campo e já trouxeram o primeiro relatório que vou partilhar convosco.

Case study nº 1 – Queijo “da Granja”
Caso exemplar. Vejamos:
Penso que já todos vimos os outdoors com os rapazinhos (o pão) e o queijo, numa imagem tão explícita que até faz doer os olhos.
Sinceramente, alguém devia dizer aos senhores que, infelizmente, o queijo é um daqueles alimentos aos quais só com um graaaande esforço se consegue associar uma carga sexual.
A ideia de associar “alimentação” e “sexo” é a mais velha campanha do mundo. Mas nem sempre funciona. Iogurte, está bem. Biscoitos de chocolate também. Com um bocadinho de imaginação até se consegue com a carne de porco à alentejana. Agora QUEIJO…não.
O queijo é feio, mal cheiroso. E é por isso que a gente gosta dele. Aliás, considero que até hoje, a melhor campanha portuguesa sobre queijo foi a do Limiano. Fazia sobressair esta opinião e assumia-a com uma ironia brutal. O queijo é mesmo assim.
Mas além de associarem o alimento e o sexo, ainda por cima usam o sexo para segmentar o alvo. Ou seja, o anúncio só interessa ou a mulheres ou a homens homossexuais. Pessoalmente, não sendo homossexual, não sei se a imagem contém algum tipo de código ou simbologia que a torne atractiva (e sei que por vezes essa simbologia é usada disfarçadamente para que apenas o alvo certo a reconheça). Mesmo assim duvido que a comunidade se reconheça na expressão “pão”. Quanto às mulheres, provavelmente serão as quarentonas as mais desesperadas por arranjar um pão assim. Mas essas são simultaneamente as mais preocupadas com gorduras, colesterol e linha, para as quais o queijo começa a ser um problema.

E de qualquer maneira não dá. Porque qualquer pessoa, quando pensa “sandes de queijo” não pensa “sexo”. É uma associação forçada, que não existe nas nossas cabeças, e que não me diz nada sobre a porcaria do queijo! É uma tentativa de mostrar que é “so cooool!” mas que acaba por ser idiota, como os adultos quarentões que vão a discotecas engatar meninas, com os pelos do peito à mostra. Qual o posicionamento do produto? “da granja” é o queijo para…para gajas…que gostem de gajos…ou, pronto, os outros, mas…mas quando estiver a andar no hipermercado, o que é que me saltará à cabeça para comprar isto? “Hmmm…quero engatar aquele tipo no meu serviço. Vou já fazer uma tosta mista.”

E pronto, isto é o resumo. Se quiserem a crítica completa enviem-me 5 Euros e um envelope que eu mando-a por correio. Sim, porque há muitas outras considerações. O enquadramento das fotos, a utilização do branco (parece um anúncio de detergente), as legendas que são colocadas em sítios esquisitos porque eles não sabem que se o modelo olha para nós, a legenda é o que ele está a dizer e assim as coisas não faziam sentido, etc. etc.

E se alguém do Marketing do Limiano estiver a ler isto, dou-vos esta borla: façam um anúncio igualzinho mas metam um camionista barrigudo. “É feio. É Limiano”. E tá a andar!
Meus caros, o C.F.I.P. procura mais exemplos e case studies. Se há um anúncio que vocês achem que é um verdadeiro insulto à vossa inteligência, mandem-nos um e-mail e nós passamos o caso aos nossos inspectores.

C.F.I.P. – Consumidores sim, otários é que não!


tempos modernos12-02-2003 12:13:00
A minha namorada aconselhou-me a largar as anfetaminas, e começa a olhar para mim de modo estranho.

Ando preocupado porque ela foi atacada por uma tosse que insiste em não a largar, como uma daquelas velhinhas que vemos aqui em Sta. Apolónia a distribuir o "Despertai!" Também não largam.

Cada vez mais acho que 2003 reserva ainda muitas surpresas. Nos proximos 15 dias, os media vão encher a barriga. Sexo ilegal e mortes em massa, a receita clássica para aumentar as audiências de qualquer estação ou jornal. Nem sequer vão saber como abrir os telejornais. Sexo e morte às 8, para toda a família.

Uma prova de que começamos de facto a ficar obcecados com esta história de pedofilia é a notícia principal desta manhã no diário digital.

"NASA fotografa infância do Universo". E publicam na Net as fotos do nosso querido e fofo Universo quando tinha apenas uns poucos milhões de anos. Chegaram à conclusão de que afinal tem apenas 13,7 biliões de anos de idade. Uma criança! E já circulam as fotozinhas para que astrónomos e curiosos de idoneidade duvidosa se excitem e revirem os olhos em frente ao monitor com esta devassa do mais que tudo deste Universo que nos viu nascer.

E se prova quisermos de que é um Universo quase bebé e ainda sem consciência da vida, basta pensar que nós, homens e mulheres, nascemos há apenas umas centenas de milhar de anos, e já arranjámos maneira de inventar objectos fálicos cada um com poder para dar cabo desta bola de lama em que vivemos. (pronto, este parágrafo foi a punch line com a moral da história, porque estas crónicas são também para a família)

Ainda não percebi se alguém está a ler estas coisas ou não (com a excepção da girl que quer puxar-me as orelhas). Mandem feedback. Eu sei que isto não é muito interessante, mas eles não me deixam pôr fotos aqui...


drop the bomb11-02-2003 11:44:00
Há dias em que a gente acorda e quer presentear o mundo com uma bazuka.

E depois há dias em que acordamos mal dispostos.

Por alguma razão, há pessoas que até gostam de ler o que escrevo. Algumas pessoas que nem sequer conheço. E que me mandam embrulhos para casa com um peixe lá dentro e dizem "Lembra-te do Luca Brazi...Continua a escrever"

Ofertas destas não posso mesmo recusar.

E vivemos tempos interessantes, não acham? Os russos elaboram planos de paz, os seleccionadores nacionais são brasileiros, e já só falta prenderem o Avô Cantigas ("...todas as crianças são minhas amigas..." - esse também nunca me enganou)

Por isso, achei que poderia criar um espaço para os verdadeiros apreciadores da imaginação distorcida e do instinto assassino. Daqui de Sta. Apolónia pretendo pintar um retrato impressionista da condição humana. Pintar à pistola, bem entendido.

Declaro 2003 o Ano Pornográfico Internacional. Em breve divulgaremos a lista de actividades.

Para já, e como diria um conhecido da margem sul, "há que arranjar inimigos". Este país anda meio adormecido. E assim, declaro como meu inimigo privado número 1 um jovem autor de texto poético de seu nome José Machado. Nem tenho assim grandes razões para torná-lo inimigo. Mas um homem que hoje em dia não tenha inimigos não é nada. Podem visitá-lo em www.jacm.net

Quanto a amigos, acho que ainda tenho alguns, talvez até estejam a ler isto. A esses peço-lhes perdão pela ousadia e por eventuais desilusões. Espero o vosso feedback. Comprometo-me a actualizar isto regularmente e a surpreender-vos na medida do possível. Se falhar, denunciem-me à PJ. Hoje em dia qualquer coisa serve, e podia ser que alguma fama me fizesse ir ao programa da Júlia Pinheiro.

Be to my virtues very kind,
And to my faults a little blind


Não me lembro bem onde li isto

Amo-vos a todos como se vocês fossem...sei lá, contas off shore.

cheers