02-04-2007 às 10:47

Pais licenciados influenciam carreira universitária de filhos

Um estudante oriundo de uma família com um nível cultural elevado tem dez vezes mais oportunidades de chegar ao ensino superior do que os que não têm essa mais-valia. E, entre os que entram, os antecedentes culturais e económicos - dois factores quase sempre interligados - pesam decisivamente no tipo de curso que se consegue alcançar.

As conclusões, publicadas na edição desta segunda-feira do jornal Diário de Notícias, pertencem ao estudo «Preferências dos estudantes», um trabalho que deverá ser publicado em breve pelo European Journal of Higher Education.

«São dados que nos deixam a pensar se, de facto, a nossa sociedade está tão democratizada como julgamos», diz Diana Amado Tavares, do Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior (CIPES) e uma das autoras do estudo.

A área da Saúde, ainda hoje uma das mais valorizadas pela sociedade portuguesa, surge como o exemplo absoluto desta realidade, com o estudo a revelar que, entre a totalidade dos estudantes que entraram no curso de Medicina, no ano lectivo de 2004/05, 73,2% têm pais com formação de nível superior.

Já os cursos de Enfermagem e Tecnologias da Saúde (dos institutos politécnicos) revelam uma proporção exactamente oposta, com 73% das famílias abaixo desse nível de formação.

Segundo a mesma investigadora, a matéria-prima para a pesquisa foram as chamadas «fichas ENES», questionários que todos os alunos preenchem quando entram no ensino superior pela primeira vez mas que, até agora, nunca tinham sido tratados.

"Quando o actual ministro [da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago] tomou posse, deparou-se com uma quantidade imensa de dados», conta, recordando que «a maioria da informação que trabalhámos diz respeito a 2004 e 2005, mas agora aguardamos os dados de 2006/07.»

Por outro lado, uma das conclusões mais controversas do estudo prende-se com a qualidade das opções dos estudantes.

Os dados parecem demonstrar que os antecedentes culturais e económicos não se limitam a afectar «a probabilidade de ingresso no ensino superior» mas também as próprias «escolhas de curso e instituição». Por outras palavras, o estudante acaba por «fazer uso dos critérios de escolha apreendidos e integrados pelo seu background social».

A percepção familiar do que é uma boa formação poderá ajudar a explicar dados aparentemente pouco plausíveis: a maioria dos alunos que optam por cursos de formação de professores (preparação para a docência), 39%, e de gestão, 20%, são oriundos de famílias que têm no máximo o primeiro ciclo de escolaridade (a antiga quarta classe).

Por outro lado, o Direito (Ciências Humanas e Sociais), as Belas-Artes e as Ciências (nomeadamente a Medicina) «são cursos maioritariamente preferidos pelos filhos das famílias com capital cultural mais elevado».

Ainda assim, refere o DN, se compararmos estes dados com as estatísticas do desemprego entre licenciados, que afecta cerca de 42 mil pessoas, parece claro que não há fórmulas infalíveis: por um lado, os cursos de Educação revelam-se uma má escolha, com cerca de 31% dos desempregados; por outro, as Artes e Humanidades vêm logo a seguir com 12%.

O diário refere ainda que o estudo revela também que o nível económico dita a escolha do sector do ensino superior. Quanto maior o rendimento das famílias, mais evidente é a opção pelas universidades, em prejuízo dos politécnicos, apesar de este último sector ser tradicionalmente encarado com mais profissionalizante.

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