21-07-2011 às 12:15

«O Pintor Debaixo do Lava-Loiças»: O final e chegava

Por Texto: Sandra Gonçalves

A Caminho acaba de lançar «O Pintor Debaixo do Lava-Loiças», de Afonso Cruz, escritor, ilustrador, músico e cineasta. A meu ver, ser versátil e multidisciplinar nem sempre é necessariamente bom. Neste caso, pelo menos, não. Se fosse um livro de ilustrações, dar-lhe-ia 20 estrelas. São incisivas, contundentes. Mas a narrativa é rebuscada, parece uma colagem de frases feitas, uma lista infindável de lugares comuns.

Conta Afonso Cruz, no epílogo, que esta história foi baseada num caso que aconteceu com os seus avós. Um pintor refugiado que dormia escondido debaixo do lava-loiças. Ivan Sors nasceu em Bratislava em Novembro de 1895 e em 1929 ilustrou um livro sobre tolerância religiosa. Nessa altura vivia nos EUA mas terá regressado a Bratislava (ou à Europa) em 1940. Afonso Cruz encontrou quadros de Sors na casa do avô. E quando procurava imagens para usar no seu livro, deparou-se, numa gaveta, com uma banda desenhada que fez quando tinha 11 ou 12 anos e que contava a história da chegada do homem à Lua.

Quando descobriu a BD ficou contente por saber que o avô as tinha guardado. «Não sabia que ele tinha orgulho nessas coisas. Ele não era muito expansivo. Para mim, o mais importante não foi o homem chegar à Lua, foi saber que eu tinha chegado até ao meu avó. Por vezes é uma viagem muito mais difícil: chegar a quem está perto.» (pág. 174)

O epílogo é lindo. Não há outra forma de o qualificar, por mais piroso que possa parecer. É verdadeiro, transparente, sincero.

O problema desta história, que segundo percebi através de uma entrevista concedida por Afonso Cruz, é que se destina a um público juvenil. Não a vejo como tal. O texto é intrincado e o autor parece apenas encontrar o fio condutor já no fim. Aí, já as palavras fluem, mas tarde demais.

«O Pintor Debaixo do Lava-Loiças» conta a história de Jozef Sors (adaptado de Ivan Sors), que nasceu numa grande casa onde os seus pais trabalhavam. A propriedade pertencia a Möller, um coronel do exército. A mãe de Sors era engomadeira e o pai mordomo. O pai era um homem muito especial, sincero e muito directo e com uma notória incapacidade para perceber metáforas. O coronel era sensível, admirava flores e gostava de as colher e usá-las atrás da orelha. No dia seguinte ao nascimento de Sors, o coronel anunciou que ele estudaria com o seu filho, Wilhelm (um ano mais velho) e que dividiriam o preceptor.

Logo cedo, Sors revelou-se mais interessado na pintura. Desde que aprendera a pegar num lápis, não fazia outra coisa senão desenhar e descobriu, à medida que ia crescendo, que o que mais gostava de rabiscar era olhos.

As ilustrações, reitero, são fabulosas. Há uma parte em que Sors descreve os pais. A mãe era tão pequenina que de longe parecia um pontinho. Já o pai era tão alto que visto de longe parecia um risco de lápis. Mas vistos de perto eram como toda a gente, com braços, pernas, nariz e chapéu. Quando se queriam beijar demoravam muitos dias, pois o seu pai tinha de se baixar desde as nuvens até ao chão e isso demorava muito tempo. Porém, quando olhava para eles, eram quase da mesma altura. Para ele era evidente: o amor aproxima as pessoas e ficamos todos do mesmo tamanho.

A relação entre o filho do coronel e do mordomo era meramente diplomática. Nunca brincavam juntos. Wilhelm lia livros de astronomia e divinizava todas as incertezas e todas as relatividades. Comia em cima da literatura e deitava-se com livros em vez de bonecos. Costumava, para clarear o raciocínio, para mastigar o que lia, andar à volta da mesa de mogno no centro da biblioteca. Andar à volta da mesa era a sua maneira de digerir o que lia.

Havia ainda a vizinha, Františka, que vivia na casa ao lado, e que acabará por ser disputada pelos dois jovens. A história gira em torno destes personagens, à qual se juntam ainda uma criada sem um dedo e um crocodilo voador. Há também uma loja de fotografias e uma casa escavada nas árvores a compor um enredo de difícil deglutição. Como disse anteriormente, o texto não flui até se chegar às últimas páginas e aí tudo ganha outra dimensão.

Lamento que, ao invés da aposta ter sido num livro de ilustração complementado com uma frase ou outra, Afonso Cruz tenha optado pelo oposto. Volto às ilustrações porque, sobre estas, sem querer ser demasiado repetitiva, são verdadeiramente encantadoras. Puerilmente encantadoras.

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