24-02-2012 às 10:26   actualizada 25-02-2012 às 10:57

Investigadora portuguesa cria fato biónico e robot nos EUA

Por Fátima Moura da Silva
Investigadora portuguesa cria fato biónico e robot nos EUA

Marta Ferraz sempre teve a «mania» das invenções e das ideias. Assim que teve oportunidade, esta investigadora de 29 anos rumou aos EUA, levando na bagagem um fato biónico, um robot e uma nave espacial. Hoje, com 29 anos, já tem uma parceria com uma empresa na Califórnia na área da Neurologia e é assediada por algumas companhias norte-americanas ligadas ao desenvolvimento e comercialização de hightech.

 

Imagine-se uma ou várias crianças nos EUA, a correr com o seu robot numa aventura pelo Coliseu de Roma, embora fisicamente no recreio da escola, e em tempo real partilhando essa mesma performance com outra crianca/crianças em Portugal. Não se teleportam, mas é quase como se fosse...e em breve pode vir a concretizar-se, garante a investigadora.

Neste século XXI, onde a maior parte das crianças do mundo ocidental já teve contacto ou possui um ou mais dispositivos electrónico, os quais as grandes marcas não páram de desenvolver e recriar em novas versões mais evoluídas, Marta Ferraz propõe-se trazer uma nova abordagem.

Tendo em conta estudos científicos da última década, verifica-se que nem sempre os aspectos do  desenvolvimento infantil são favorecidos aquando da utilização de vídeo-consolas portáteis, computadores pessoais ou mesmo sistemas televisivos, explica. Além disso, o estilo de vida sedentário causado por este tipo de interacções digitais durante muito tempo pode causar níveis elevados de obesidade infantil, bem como patologias como a epilepsia, deficiências no controlo postural e hiperactividade.

«Por isso, desafiei-me a criar um novo conceito de dispositivos tecnológicos móveis», conta. Os The BioBits&Kids tools, cuja start´up está a criar nos EUA (a  BioBits&Kids) implicam uma «nova filosofia de desenvolvimento infantil, conjugando o mundo físico e o mundo virtual em diferentes ambientes fisicos, o que torna  as anteriores soluções tecnológicas obsoletas», acrescenta.

Assim nasceram e se desenvolveram este fato biónico (The Albert Gravimente Suit), robot (The Cratus Robot) e nave espacial, que além de uma função lúdica, têm aplicações terapêuticas como por exemplo em hospitais, centros de fisioterapia,  ajuda com patologias de locomoção e programas de saúde. Mas, sobretudo, foram criados para serem integrados em escolas, parques infantis e, mesmo, para serem usados no jardim de casa,  de forma a optimizarem o desenvolvimento da criança nos domínios cognitivo, motor, fisiológico, social e virtual.

Estas invenções permitem uma conjugação entre as suas características electromecânicas e o corpo da criança - parte motora, fisiológica, sensorial e perceptiva, conectada a uma rede global a que denominou de World Embodied Interlace. Os dispositivos estão inseridos nas áreas da robótica e das novas tecnologias cyborg,  resultado da extensão do domínio perceptivo e sensorial da criança, da ligação dos sinais fisiológicos a um software e a um estímulo a diferentes acções motoras em conexão com os dispositivos e ambientes fisicos reais.

Em termos práticos,  com o fato biónico, por exemplo, a criança dispõe de um écran virtual na área ocular que lhe permite realizar tarefas visuais  perceptivas aumentadas, correr com um robot no parque perto de casa, ao mesmo tempo que sensores lhe medem a frequência cardíaca para controlar o ambiente virtual.

 Os dispositivos criados permitem a partilha entre crianças, negando o conceito da necessidade da individualização de dispositivos e promovendo o factor social face-a-face, explica a cientista.

E a socialização não é necessariamente apenas com o vizinho do lado, mas também em diferentes partes do planeta: a mesma brincadeira pode ser partilhada em tempo real entre crianças em países diferentes.

Através destes projectos, «basicamente pretendemos explorar a relação entre as várias fases do desenvolvimento infantil e a utilização de novas ferramentas tecnológicas,  no que se refere à evolução de um corpo interconectado: o corpo motor, fisiológico, cognitivo, social e virtual», afirma Marta Ferraz. «Constatámos já forte motivação e aumento dos niveis de dispêndio energético, conribuindo para estados positivos de aprendizagem e saúde nas crianças», refere.

Além disso, também respeitam o conceito de sustentabilidade ecológica, sendo recarregados através de energia solar e mecânica, cativando as reflexões das crianças para esta temática, explica.

Marta foi para os Estados Unidos concretizar as ideias e os protótipos que já criara em Portugal. Candidatou-se ao programa de doutoramento em Medias Digitais do programa UT-Austin Portugal a convite do professor António Câmara (presidente da Ydreams e professor na Universidade Nova), e ganhou uma bolsa internacional. «Fiz uma visita a Austin, Texas, em Setembro de 2010 durante 15 dias e pode dizer-se que o grau de sedução foi elevado», conta. A UT Austin (University of Texas at Austin) é uma das melhores universidades do mundo e está a crescer a grande velocidade. Fiquei estupefacta com as condições e a quantidade de bibliotecas! 17!  Que incluem as mais variadas temáticas de estudo. No meu caso a preço zero», diz.

Impressionada com a qualidade e dinâmica de conferências e formação a que teria acesso, não pensou duas vezes quando os seus dois actuais mentores, Craig Watkins, do departamento de Radio-television-film, e Paul Resta, do College of Education, a convidaram a ficar. «Houve muita curiosidade em relação ao meu projecto e tive uma recepção extraordinariamente positiva», agora alargada também ao professor Yacov Sharir do departamento Teathre and Dance. A decisão está a render frutos.

Tem uma parceria com uma empresa na Califórnia na área da Neurologia, com a qual trabalha no desenvolvimento e validação de instrumentos de medição neurológicos para crianças em situações de elevada mobilidade, e com está a elaborar publicações científicas pioneiras na área. Os dispositivos tecnológicos que criou estão na fase de implementação em sociedade com empresas norte-americanas  que nao podem ser reveladas no momento, e existe também interesse da UT Austin em desenvolver o projecto para uma fase mais avançaada. «A ideia é a de que, por exemplo, possamos ver  crianças no dia-a- dia a brincar com robots na rua, muito em breve», refere. 

«O facto de poder trabalhar com crianças com uma cultura diferente também me motivou a ficar. Gosto de viver experiências diferentes e esta é uma grande oportunidade para o desenvolvimento do meu trabalho, dadas as condições que o pais apresenta. Gosto imenso de Portugal, mas não desperdiço um novo terreno e também vejo o meu trabalho como sendo universal. O conceito de fronteiras não se me aplica», afirma. Mostra-se, no entanto, muito reconhecida a quem a ajudou em Portugal.

«Tive muito apoio nas fases iniciais da minha formação da Faculdade de Motricidade Humana. Foi lá que construí a base essencial da minha formação quando realizei o mestrado em Desenvolvimento da Criança. Tive o o apoio de vários mentores, o que foi fundamental para mim e para o meu crescimento enquanto profissional. O meu orientador actual, professor António Câmara, possibilitou em conjunto com a Fundação para a Ciência e Tecnologia o acesso à  bolsa de doutoramento».

Com  uma licenciatura em Educação Física, Marta Ferraz fez uma pós-graduação em Exercício e Saúde e um mestrado em Desenvolvimento da Criança, além de ser auto-ditacta nos várias outras áreas do conhecimento: desenvolvimento tecnológico, mecânica, electrónica, artes, ecologia, entre outras. «Gosto de conjugar os meus conhecimentos de forma a desenhar o futuro», afirma. «

E o facto de sermos versáteis e imaginativos torna-nos mais capazes numa sociedade altamente competitiva. Gosto de procurar aquilo que me desperta curiosidade e me faz ir mais além», salienta.

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