19-06-2012 às 15:28

Estudo revela segredo da longevidade no Japão

O Japão tem a maior média de esperança de vida do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das Nações Unidas (ONU), e o segredo não é somente a alimentação, como se pensava.

Segundo Kenji Shibuya, professor do departamento de política global de saúde da Universidade de Tóquio, as razões da longevidade japonesa têm tanto a ver com o acesso a medidas de saúde pública quanto a uma dieta equilibrada, educação, cultura e também atitudes de higiene no dia-a-dia.

O especialista e uma equipa de investigadores estudaram vários aspectos da cultura, da política e da economia japonesa que influenciam na forma de viver da população e publicaram o estudo no jornal médico The Lancet.

«A expectativa de vida do japonês aumentou rapidamente entre os anos 1950 e 1960, inicialmente, por causa da queda da taxa de mortalidade infantil», explicou à BBC o professor Shibuya.

Depois, as autoridades concentraram esforços para combater a mortalidade adulta. O resultado positivo foi, em grande parte, consequência dessa política de saúde adoptada pelo país.

Hoje, um bebé quando nasce no Japão pode esperar viver até aos 86 anos se for uma menina, e quase 80 se for menino. Mas, segundo o estudo conduzido por Shibuya, os japoneses nem sempre tiveram a perspectiva de viver durante tanto tempo.

Em comparação com dados de 1947, houve um salto de mais de 30 anos na expectativa de vida de uma pessoa.

Esse crescimento começou no final da década de 1950, quando o país passou a experimentar um desenvolvimento económico acelerado.

No pós-guerra, o governo começou a investir em acções de saúde pública, introduzindo o seguro nacional de saúde em 1961, tratamento grátis para tuberculose e infecções intestinais e respiratórias, além de campanhas de vacinação.

Uma das principais acções foi a redução das mortes por acidente vascular cerebral (AVC). «Isso foi um dos principais impulsionadores do aumento sustentado da longevidade japonesa depois de meados dos anos 1960», contou o estudioso.

«O controlo da hipertensão melhorou através de campanhas, como a de redução do consumo de sal, e uma maior utilização de tecnologias de custo-benefício para a saúde, como medicamentos anti-hipertensivos com cobertura universal do seguro de saúde.»


Porém Shibuya lembra que o crédito dessa conquista não é só do governo. «Em 1975, muitas doenças não transmissíveis já estavam em níveis extremamente baixos em comparação com outras nações de elevado PIB, devido em grande parte a uma herança cultural de cuidados com a alimentação e prática de actividade física», sugere.

Além disto, segundo o estudo, os japoneses dão uma atenção à higiene em vários aspectos da vida diária. «Essa atitude pode, em parte, ser atribuída a uma complexa interacção de cultura, educação, clima (por exemplo, temperatura e humidade), ambiente (por exemplo, ter água em abundância e ser um país consumidor de arroz) e a velha tradição xintoísta de purificar o corpo e a mente antes de se encontrar com outras pessoas», diz o estudo.

«Eles também são conscientes em relação à saúde. No Japão, check-ups regulares são normais e oferecidos em larga escala em escolas e no trabalho, a todos, pelo governo», afirma ainda o estudo. «Em terceiro, a comida japonesa tem benefícios nutricionais equilibrados e a dieta da população tem melhorado de acordo com o desenvolvimento económico ao longo das décadas.»


O lado negativo do sucesso do Japão em conseguir manter a população saudável é o desequilíbrio populacional. Até agora, cerca de 24% da população tem mais de 65 anos. Mas cálculos do governo apontam que, em 2060, a percentagem de idosos será de 40%, numa população que se reduzirá dos actuais 127 milhões para 87 milhões.

Segundo o estudo, a expectativa de vida deve aumentar ainda mais, chegando a 84 anos para homens e 90 para as mulheres.

«O rápido envelhecimento da população japonesa é um desafio para o sistema de saúde do Japão em termos de financiamento e qualidade dos cuidados», aponta Shibuya.

«Simplesmente aumentar a expectativa de vida não faz mais sentido. Devemos focar mais em maximizar de forma saudável essa expectativa de vida», sugere.

Outros desafios que o Japão enfrenta são elevados índices de alcoolismo, tabagismo e suicídio, problemas gerados em parte por causa do aumento do desemprego e do prolongamento da crise económica.

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