18-09-2012 às 10:36

John Green e os seres singularmente únicos

Por Sandra Gonçalves
John Green e os seres singularmente únicos

Hazel Grace e Augustus Waters. Dois adolescentes de 16 e 17 anos, respectivamente. Conhecem-se num grupo de apoio a doentes com cancro em Indianopolis, nos EUA, e apaixonam-se. John Green, autor de vários bestsellers do The New York Times, explora em «A Culpa é das Estrelas», que chega a Portugal através da Asa, a aventura divertida, empolgante e trágica que é estar vivo e apaixonado. O cancro, aqui, embora sempre presente, parece ser sempre secundário.

Um romance sobre adolescentes com cancro, alguns em fase terminal, podia ser devastador, de levar às lágrimas. Mas este não é um desses casos. John Green não entra em melodramas. Prefere escrever sobre a vida e o amor, sobre a honestidade e o carácter único de cada ser humano, instalando no leitor um sentimento de antítese. De contradição. Mas prazenteiro e de alento.

Hazel Grace sofre de cancro nos pulmões «eventualmente» terminal. Anda sempre acompanhada por uma botija de gás e tubos nas narinas. Cansa-se facilmente. Porém, o que se destaca nela é um sentido de humor único. Hazel Grace é uma adolescente muito mordaz, inteligente, cheia de sentido de humor e, segundo o autor a descreve, linda. Já Augustus Waters foi amputado a uma das pernas, também por causa do cancro, que já parece debelado, mas que ressurge inesperadamente e de forma grave. Há ainda um terceiro elemento importante nesta história, amigo em comum, o Isaac, cego por ter sido submetido a uma cirurgia por conta de um raro cancro nos olhos. É assim que é descrita a sua condição. Porém, no meio de tanta doença, hospitais, recaídas, pais em constante alarme, o leitor ri-se dos disparates destes jovens muito peculiares. Fica aturdido com a beleza de uma frase ou até mesmo com a reviravolta da história.

Hazel, que tem de permanecer por longos tempos numa bolha de oxigénio no quarto, adora ler, mas ultimamente tem dedicado todo o seu tempo livre a um único livro: «Uma Aflição Imperiosa», escrita por um personagem desconcertante, alcoólico e maluco de nome Peter Van Houten, que vive agora na Holanda. Já Augustus Waters (Gus) é um aficionado por videojogos e outro tipo de leituras, que metam zombies e corpos mutilados em massa. Mas ao ser-lhe apresentado aquele que passará a ser referido simplesmente como o «UAI» (Uma Aflição Imperiosa) apaixona-se, também ele, pelo livro. Mas há um senão que atormenta o jovem casal. O UAI chegou ao fim sem um fim. E esta será a sua grande senda: descobrir o que aconteceu aos personagens. Para isso, em condições que normalmente não seriam viáveis, encetam uma longa viagem à procura de respostas para o fim do livro. De Indianopolis a Amesterdão. Na Holanda trocam o seu primeiro beijo, curiosamente na casa de Anne Frank, e fazem amor (mas já não na casa de Anne Frank). 

Há dias em que os dois sentem-se bem, mas há outros em que não. Estão doentes. São doentes. Num dos dias maus, em que Hazel Grace está a passar mal, Gus vai visitá-la a casa e encontra-a triste - «Seria capaz de abdicar de todos os dias de doente que me restavam por uns poucos de vida saudável» - no pequeno jardim das traseiras de casa. Senta-se ao seu lado e observa ali um baloiço já velho. O baloiço estava simplesmente ali parado, ao abandono, com as duas cadeirinhas a penderem quietas e tristes de uma tábua de madeira acinzentada, com o contorno dos assentos a fazer lembrar o desenho de um sorriso de um miúdo.

«É um maldito baloiço triste», diz Augusto Waters, acrescentando: «Há que fazer alguma coisa em relação a esse maldito baloiço (…) Constitui noventa por cento do problema.»

De imediato, vão para dentro e sentam-se no sofá lado a lado, com o computador portátil metade no joelho (falso) dele e metade no dela e juntos começam a escrevinhar um anúncio. Começam por escrever «Baloiço precisa de casa», depois «Baloiço desesperadamente só precisa de casa acolhedora», ao que se segue «Baloiço só e vagamente pedófilo procura rabos de crianças». Riem-se.

Gus diz-lhe: «É por isso que gosto de ti. Tens noção de como é raro encontrar uma rapariga boazona que cria uma versão adjectivada da palavra pedófilo?» Grace é singularmente única. Gus igualmente.

No final, concordam que o anúncio ficará assim:

«Baloiço desesperadamente só precisa de casa acolhedora

Um baloiço, bastante agastado mas seguro em termos de estrutura, procura uma nova casa. Construa memórias com o seu filho ou filhos, para que um dia, ele ou ela ou eles olhem para o jardim das traseiras e sintam a dor do sentimentalismo de modo tão desesperado como eu senti esta tarde. Tudo é frágil e fugaz, caro leitor, mas, com este baloiço, o(s) seu(s) filho(s) serão apresentados aos prós e contras da vida humana de uma maneira calma e segura, e poderão também aprender a lição mais importante de todas: Por mais impulso que se dê, por mais alto que se chegue, não se consegue dar a volta completa.
O baloiço reside actualmente perto da 83.ª e da Spring Mill.»

O anúncio recebeu vários pretendentes e acabaram por seleccionar um tipo que incluíra na resposta uma fotografia dos seus três filhos a jogar jogos de computador e que escrevera no assunto: «Só quero que eles vão lá para fora.»

A determinada altura haverá elegias, elegias editadas pelos próprios. Mas isso só será a dada altura, porque pelo meio há tanto mais. Um romance que é uma lição de vida. Uma espécie de manual de auto-ajuda (sem o ser) de como aprender a relativizar o que de mal nos pode acontecer. Porque, afinal, a vida tem muitos dias e cada um deveria ser vivido com se fosse uma grandiosa dádiva. Lamechas o final do texto. O meu. Nada lamechas este «A culpa é das Estrelas». 

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