01-03-2013 às 10:47

Até à 5ª Casa: Memória

Por Sérgio Diamantino

Hoje em dia já ninguém decora números de telefone. Ou, pelo menos, não se decoram muitos. Ficam todos na agenda. Naturalmente, antes de haver a agendas «nos» telefones, havia as agendas «dos» telefones. Toda a gente apontava os números à mão num livro pequeno, onde se encavalitavam as letras quando alguém mudava de número porque também mudava de casa.

Hoje em dia, os números não são das casas, são das pessoas, o que nos dá uma razão para decorar os números. Mas acontece exactamente o contrário. São raros os números de telefone que alguém sabe de cor.

Ora se nós já não usamos esse espaço do cérebro com os números de telefone, ou com as moradas - porque já existe o gps e nem precisamos saber ler mapas (se bem que grande parte das mulheres nunca soube ler mapas e isso nunca foi impedimento para viajar de carro) – também não ocupamos o cérebro com a tabuada – já que em qualquer jantar com mais de quatro pessoas, quando aparece a conta, há sempre alguém a agarrar na calculadora do telemóvel – se começamos a ter tanto espaço «livre» no cérebro, estamos a ocupar esse espaço com quê?

Será que estamos mais inteligentes? Será que estamos a ocupar a cabeça com coisas menos importantes e menos interessantes? Será que não sabemos tantos números de telefone mas percebemos mais de pintura?

Há uns anos atrás, as conversas de café ou no táxi abordavam sempre o tema do futebol. Hoje em dia, continua a falar-se de futebol e juntou-se também a economia e a politica. Mas a politica e a economia não são suficientes para ocupar o espaço da tabuada, dos nomos dos rios, dos números de telefone ou nomes das ruas. Ou será que são?

Nos dias que correm, as pessoas sabem mais coisas sobre mais coisas. Ou seja, não apenas as pessoas dominam mais assuntos, como também os dominam com mais profundidade. Continuam naturalmente a existir pessoas que não pescam nada sobre nada e continuam a mandar bitaites sobre tudo, só que agora opinam sobre tudo e mais alguma coisa.

O que me parece interessante é que as pessoas começam a discutir mais temas, a perceber sobre mais assuntos, a entender pequenas artimanhas da politica e truques da economia, mas, talvez exactamente por isso, têm a memoria mais curta.

Parece-me que as pessoas se estão a esquecer facilmente das asneiras que têm e lhes têm feito ao longo do tempo. Da mesma forma que colocam os números de telefone na agenda do mesmo, talvez esteja no momento de adicionarem também alguns apontamentos no bloco de notas, já que essas são as únicas notas às quais vão ter acesso durante alguns anos.

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