13-07-2013 às 18:01

Um ardina já não se sustenta só a vender jornais

Um ardina já não se sustenta só a vender jornais

Os jornais e as revistas já não são, como no passado, a única fonte de receitas do negócio dos quiosques em Lisboa, e, “para segurar a banca”, um ardina português do século XXI tem de vender outros produtos e serviços.

Os tempos mudaram. “Não há dúvida de que hoje é difícil sobreviver só com a venda de jornais e revistas”, diz à Lusa o presidente da Associação dos Ardinas de Lisboa, José Matias.

Nos últimos dez anos, afirma, a margem de lucro caiu de 20-25% para 12-15%, e o volume de negócios diminuiu em 50%. "É aqui que está a questão”, explica, queixando-se também de que as empresas de distribuição pedem aos ardinas cauções muito elevadas.

Henrique Neves, de 55 anos, neste negócio há 16, vende no seu quiosque, virado para o jardim do Príncipe Real, muitos produtos para além de jornais e revistas, como cigarros, águas, pastilhas ou isqueiros.

“Com esta idade tenho que me aguentar, não consigo arranjar emprego em mais lado nenhum”, diz à Lusa. O negócio, afirma, tem vindo a decair de ano para ano: "As pessoas não têm poder de compra e como este não é um produto de primeira necessidade deixam de comprá-lo”, explica.

Pelo caminho de quem desce em direção ao rio, na avenida da Liberdade, há mesmo quiosques onde os jornais foram destronados por 'souvenirs' - como postais, ímanes, bases para tachos - e por utilitários - como leques, mapas da cidade, chapéus e óculos de sol - e quase não se distinguem em bancas repletas.

Em declarações à agência Lusa, o vereador José Sá Fernandes, responsável na Câmara de Lisboa pelo Espaço Público, reconhece que sabe que muitos quiosques praticamente já não vendem jornais e garante que a autarquia está a trabalhar para resolver o problema.

"Tenho essa perceção e acho que temos de mudar isso. Temos o levantamento feito, e é um assunto que temos de resolver, porque os quiosques devem servir para a venda de jornais", afirma, acrescentando que estes espaços "não podem fazer concorrência às lojas que estão instaladas".

Na baixa lisboeta, Rosa Novais Bonifácio, de 55 anos, há 28 num quiosque, diz à Lusa que teve que transformar a banca numa pequena tabacaria, porque “só com os jornais não conseguia sobreviver”.

A enquadrar esta conversa há, a perder de vista, pastilhas, mapas da cidade, tabaco, águas, chocolates, cigarros, postais, magnetos: “Como a margem [de lucro pela venda de jornais] é muito pequena, tenho de ter bastante variedade [de produtos] para conseguir fazer face às despesas”, explica.

Rosa Bonifácio não tem empregados. Abre o quiosque às 06:30 e fecha-o às 20:00. “Não é que não gostasse de ter alguém que me ajudasse, mas não dá”, diz.

Muitos dos que passam por aqui espreitam as capas, veem os títulos, mas não compram: “Há outras prioridades. O comer faz mais falta, e é onde vai o dinheiro todo”, explica.

Abaixo da Baixa, já quase junto ao rio, no Cais do Sodré, Francelina Vasques, de 49 anos, “segura a banca” que o marido mantém há mais de 30 anos, muito perto da entrada para a estação de comboios, com a venda de bilhetes para autocarros turísticos. “O negócio está péssimo”, estes bilhetes “complementam as receitas”. Se não fosse isso, diz, já tinha fechado a porta, “não conseguia” manter-se.

Lina, como os clientes habituais lhe chamam, diz que faz "os possíveis" para sobreviver à "quebra diária do negócio": está aqui 14 horas todos os dias, sem folgas, e espera que "tudo melhore".

Diário Digital com Lusa

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