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terça-feira, 2 de Junho de 2009 | 17:56
Gilda Lopes Encarnação: «A Montanha Mágica» da tradução
Texto: Pedro Justino Alves

Considerada uma obra fundamental da literatura mundial, o mercado português recebe pela primeira vez uma tradução directa do alemão de «A Montanha Mágica», de Thomas Mann (edição Dom Quixote), a cargo de Gilda Lopes Encarnação, que precisou de dois anos para concluir o trabalho devido a complexidade do texto.

Traduzir «A Montanha Mágica» é um trabalho exigente, não só devido as suas mais de 1000 páginas, mas principalmente devido ao seu conteúdo. No total, Gilda Lopes Encarnação precisou de dois anos. A tradução em si demorou cerca de um ano e meio, enquanto os restantes seis meses foram entregues a revisão e a redacção do posfácio.

O trabalho de Gilda Lopes Encarnação está agora nas livrarias, um trabalho que relança um novo olhar para uma obra que há muito conquistou os olhares do Mundo.

«Esta tradução obedece a um cuidado e rigor estilísticos e, de um ponto de vista geral, linguísticos muito mais elevados do que a anterior tradução. É nesse aspecto que reside a principal diferença entre ambas as traduções: a preocupação com a palavra, com as escolhas do autor no original, com a naturalidade do discurso», considera.

Como foi o processo de tradução? Leu em primeiro lugar o livro e só depois traduziu? Ou leu e traduziu ao mesmo tempo?
Como já conhecia a obra, não a li na íntegra antes de iniciar a tradução. Ia lendo capítulo a capítulo, antes de iniciar a respectiva tradução. Usei o método de sempre, que é o seguinte: fidelidade tanto quanto possível ao autor e à obra que se traduz, tentativa de conservar as marcas estilísticas e linguísticas do autor, bem como as suas escolhas semânticas; conservar o tom da obra e as marcas de poeticidade; traduzir de modo a que o leitor de língua portuguesa leia a obra traduzida sem se aperceber de que é uma tradução, isto é, com a naturalidade e fluência com que um leitor de expressão alemã lê o original. A única diferença em relação a tradução anteriores foi a criação de um mini-dicionário Thomas Mann, com expressões e termos que se repetem ao longo da obra, sobretudo Leitmotive, que caracterizam personagens, indiciam ambientes, sugerem uma atmosfera. Devido à extensão da obra (mil páginas em alemão), este método tornou-se necessário a fim de não perder a visão de conjunto sobre a mesma.

Foi complicado fazer a tradução? Porquê?
A linguagem de Thomas Mann não é fácil, a estrutura sintáctica também apresenta algumas dificuldades e o universo de significações de «A Montanha Mágica» é tão vasto e complexo que implica um conhecimento muito profundo da sociedade e da época do início do século XX, da história das ideias do Ocidente (sobretudo das correntes filosóficas) e do próprio espaço geográfico e paisagístico retratado na obra.

Devido à obra em si, uma referência mundial, sentiu alguma maior pressão em termos pessoais?
Não! Qualquer tradução merece o mesmo respeito e humildade da parte do tradutor.

Porque acredita que o livro demorou tantos anos para ser traduzido directamente do alemão?
Possivelmente porque esteve disponível no mercado livreiro português, até muito tarde, a tradução de Herbert Caro, feita do alemão para o português do Brasil e depois adaptada ao português europeu.

Acredita que esta tradução é mais próxima da versão original do autor?
Esta tradução obedece a um cuidado e rigor estilísticos e, de um ponto de vista geral, linguísticos muito mais elevados do que a anterior tradução. É nesse aspecto que reside a principal diferença entre ambas as traduções: a preocupação com a palavra, com as escolhas do autor no original, com a naturalidade do discurso.

Já tinha lido a obra?
Li durante a minha Licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no âmbito da cadeira Teoria da Literatura, em 1984-85.

Qual a sua opinião pessoal sobre «A Montanha Mágica»
É um livro mágico, que prende e cativa o leitor desde as primeiras páginas, um livro que é ao mesmo tempo uma obra de ficção e um manual de filosofia, história das ideias, psicologia, sociologia, para além de fazer excursos pela medicina, biologia, botânica, anatomia, astronomia, astrologia, etc. É um livro extremamente poético, com passagens de um fascínio e enlevo extraordinários. De uma ironia subtil mas incisiva, que vai desde a caracterização das personagens à criação de episódios e situações ímpares. É também uma obra maravilhosa (próximo do conto de fadas, no sentido do alemão märchenhaft), com alusões a um mundo fantástico e onírico, com episódios que oscilam entre o real e o imaginário. Aliás, a própria história da personagem principal, Hans Castorp, desenrola-se entre a fantasia e a realidade, num mundo que parece suspenso, ao nível da eternidade imóvel e estática de que se fala reiteradamente no romance.

E o que em concreto a fascinou em «A Montanha Mágica»?
A magia da montanha, como refiro no posfácio: no final do romance, o leitor não sabe se tudo o que se narrou anteriormente foi realidade ou apenas imaginado/criado pela personagem – ou um sonho do próprio leitor. O mesmo se passa com Hans Castorp: quando regressa à planície, o mundo da montanha que fica para trás, imóvel e estático, parece que nunca existiu ou não passou de um sonho. É este efeito onírico que me parece muito interessante no romance e verdadeiramente original.

Na sua opinião, por que razão «A Montanha Mágica» é considerado um clássico?
É uma obra intemporal, como «Ulisses», de James Joyce, «O Homem sem Qualidades», de Robert Musil, «Cem Anos de Solidão», de Gabriel Garcia Marquez, ou «Memorial do Convento», de José Saramago. Será sempre compreendida e apreciada em qualquer época e espaço geográfico, porque trata do tema mais intemporal/imutável da história dos homens: a condição e a natureza humanas, os seus conflitos e dilemas, a vida e a morte, a razão e paixão, a doença e a saúde, a normalidade e a ousadia pelo desafio.

O que o livro traz de interessante aos leitores?
Digamos que este romance condensa o ideal de Luigi Settembrini da criação de uma obra enciclopédica, muito ao gosto do racionalismo iluminista, neste caso, não uma Enciclopédia do Sofrimento Humano, mas uma Enciclopédia do Homem e das Ideias: nele encontramos concentrada a história do homem e da sua condição humana, demasiado humana.

Em relação a sua área em concreto, como vê a tradução no nosso país?
A tradução da literatura alemã no nosso país apresenta ainda muitas lacunas, porque, a par dos clássicos, dever-se-ia considerar também a literatura mais recente (contemporânea e pós-moderna). Há que atender igualmente ao que se escreve na Áustria e na Suíça e não apenas na Alemanha e dar mais relevância ao teatro e à poesia e não só à narrativa. Há um imenso trabalho por desenvolver. É necessário que sejam criadas equipas de tradutores a trabalhar no mesmo autor, como se faz de momento para Musil ou Jürgen Habermas, pois só as equipas podem dar uma resposta coesa e consequente a grandes projectos de tradução. É necessário ter mais cuidado com o que se traduz, porque nem tudo vale a pena. Atente-se na literatura efémera, superficial e supérflua que é hoje traduzida no nosso país e que enche os escaparates da maior parte das livrarias.

E quais os principais problemas da sua actividade neste momento?
Como tradutora, e exercendo esta actividade em part-time, o único problema é o do tempo, conseguir repartir o meu tempo por todas as tarefas que desempenho. Mas a tradução é uma paixão.

Consegue-se viver da tradução?
Como actividade paralela, sim; como actividade principal, ninguém o consegue. As editoras pagam no final da tradução, o que pode durar anos, e o honorário não é muito elevado (para o trabalho desenvolvido).

 


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