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segunda-feira, 16 de Novembro de 2009 | 11:53
Pedro Sena-Lino: «O conto representa um mercado extraordinário»
Texto: Pedro Justino Alves

Os livros «Princesa, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» e «Contos de Vampiros», ambos editados pela Porto Editora, reúnem vários escritores que trabalham sobre o tema de cada obra. Gonçalo M. Tavares, José Eduardo Agualusa, Rui Zink, Ana Luís Amaral, Hélia Correia e João Tordo são apenas alguns dos autores que participam neste projecto algo invulgar nas letras nacionais. Segundo o coordenador Pedro Sena-Lino, «todos os escritores gostam de receber estímulos diferentes para escrever sobre temas diferentes dos habituais». Cabe agora aos leitores conhecerem esta faceta menos conhecida dos seus autores preferidos.

Pedro Sena-Lino garante que não teve a mínima dificuldade para reunir autores para participarem nestes projectos, principalmente devido ao desafio que o mesmo levanta, mas também porque os autores apreciam «trabalhar em conjunto com outros sobre um tema comum». O coordenador de «Princesa, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» e «Contos de Vampiros» acredita antes de tudo que estas duas obras são importantes para as letras nacionais porque trabalham temas quase ou nada presentes na literatura portuguesa.

Mas Pedro Sena-Lino ressalva ainda outro pormenor em «Princesa, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» e «Contos de Vampiros».

«A situação do mercado editorial torna a publicação de contos mais difícil e mais rara. E o conto não é um género fácil: é um raio-x preciso e certeiro ao mais definitivo e constituinte de um autor: os seus temas, os seus recursos, o seu imaginário, a sua técnica narrativa (…) Estou convencido que o conto representa um mercado extraordinário e que pode ser largamente expandido. Com as dificuldades de tempo com que os leitores de hoje se defrontam, o conto representa uma espécie de unidade mínima de tempo real de leitura. Penso que esta ideia devia ser trabalhada pelas editoras, e mais, devia ser fruto de uma campanha nacional.»

Foi complicado convencer os escritores a participarem nestes dois projectos? Como foi a reacção deles? Tiveram algum receio? Aceitaram de imediato o desafio?
De forma alguma: todos os escritores gostam de receber estímulos diferentes para escrever. Estas colectâneas dão possibilidade de escrever sobre temas diferentes dos habituais, e mais, de trab alhar em conjunto com outros autores sobre um tema comum.

Teve algum que o surpreendeu por ter aceitado o convite? Porque? E qual aquele que mais o surpreendeu? Porque?
Surpreenderam-me sobretudo as respostas entusiastas dos escritores à colectânea de Contos Infantis, já que parte deles nunca se tinham antes debruçado sobre este género. Na verdade, é um gesto corajoso e que gera leitores: estes leitores de nove, dez, onze anos, vão daqui a seis ou sete procurar as obras dos escritores que conheceram primeiro nesta colectânea de infantis. Cria-se uma relação desde as primeiras leituras.

Como foram as negociações entre as editoras? Foi complicado libertarem os escritores para este tipo de projectos?
Esse é um aspecto pragmático que fica à consideração de cada autor e das editoras em causa. Na verdade, penso que o que move todos, mais do que qualquer burocracia, é a possibilidade de escrever um conto sobre um tema menos comum. E sublinho conto porque a situação do mercado editorial torna a publicação de contos mais difícil e mais rara. E o conto não é um género fácil: é um raio-x preciso e certeiro ao mais definitivo e constituinte de um autor: os seus temas, os seus recursos, o seu imaginário, a sua técnica narrativa.

O que acredita que estes projectos trazem de positivo para a literatura nacional?
O facto de trabalharem temas quase ou nada presentes na Literatura Portuguesa. Nesse aspecto, a aposta da Porto Editora é duplamente vencedora à partida: porque faz história na literatura portuguesa ao criar obras que reflectem temas não trabalhados, como o policial ou os vampiros. E ao provocar criadores e leitores para esses temas: a partir daqui os leitores vão encontrar na sua língua, com autores portugueses, temas que procuravam antes noutras literaturas. É preciso de uma vez por todas acabar com o mito nacional de que só o estrangeiro é bom.

Acredita que a criatividade fica facilitada por escreverem sobre temas que não estão habituados? Ou, pelo contrário, acaba por restringir a mesma?
Como professor de escrita criativa há dez anos, sei que a criatividade se liberta e processa por constrangimentos. Constrangimentos criativos, precisamente. Um tema e um período de tempo determinados fazem muito pelo aparecimento de material novo numa obra e num autor.

Dos dois livros, quais textos gostaria de salientar, um para cada obra, seja pela sua história, seja pela sua forma ou seja pelo seu conteúdo?
Isso é um pouco como o dilema do Marco Paulo. Penso que ambos, para diferentes públicos, vão procurar figuras e temas que são Literatura: porque é isso a Literatura: sermos provocados por uma construção de sentidos. Vampiros, Piratas, Fadas, todas estas figuras trabalham no nosso imaginário e contam dentro de nós a história das imensas e inexploradas paixões da alma.

As histórias reunidas no livro «Princesa, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» poderão desfazer o eterno «final feliz» das histórias infantis?
O final feliz é útil em termos de crescimento dos primeiros leitores: se viverem a infância a ler finais felizes, talvez passem a adolescência à procura dos finais menos felizes…! O que me parece mais importante é abordar temas e conflitos, mais do que o final, que são sonegados às crianças, porque ficam apenas no limbo do azul/cor-de-rosa narrativo: a morte, a perda, a deficiência. Por isso fizemos questão que o essencial fossem personagens com problemas.

Se a escolha dos piratas e princesas acaba por ser pacífica, a escolha do tema Vampiros é no mínimo corajosa. Receou oferecer este tema aos escritores?
Não duvidámos um segundo. Na verdade a colectânea estava planeada há quase dois anos, muito antes da mania vampírica actual. A Porto Editora e eu próprio achámos desde logo que o mercado nacional precisava de vampiros portugueses e em português. Não duvido que esta será a primeira obra de várias que trabalham o tema em profundidade.

Apesar do tema Vampiros invadir as livrarias mundiais, a verdade é que a nossa literatura é quase insignificante na abordagem a este fenómeno. Porque?
É uma questão cultural. Cada cultura procura e gera as suas figuras de interdito, as suas personificações do medo. Durante muito tempo tivemos a figura da moira, entre medo e fascínio; ou outra figura, marcadamente negativa, como a da bruxa. Há outros, que quem sabe poderão dar origem a outras colectâneas. Mas de facto pela nossa cultura mais marítima que terrena, esses medos fechados aparecem muito pouco. Sou da opinião que seremos dos povos que têm menos sanidade simbólica, que menos trabalho cultural fazem sobre as próprias feridas. Se os Estados Unidos tivessem tido uma guerra colonial como a nossa, os próximos cem anos de Hollywood e televisão seriam ocupados pelo tema.

Ao reunir grandes nomes da literatura nacional nestas obras, abre também espaço para os contos, um género que também é ignorado pelo público português.
Estou convencido que o conto representa um mercado extraordinário e que pode ser largamente expandido. Com as dificuldades de tempo com que os leitores de hoje se defrontam, o conto representa uma espécie de unidade mínima de tempo real de leitura. Penso que esta ideia devia ser trabalhada pelas editoras, e mais, devia ser fruto de uma campanha nacional.

Quais são os segredos essenciais para termos bons contos?
Essa sua pergunta é-me feita todos os dias pelos meus alunos nos cursos de Escrita Criativa, e procurei responder-lhe nos dois manuais que publiquei sobre o tema na Porto Editora. Mas desde já, duas coisas parecem-me ser as duas mãos de um bom conto: um enredo inquietante, e um estilo ousado e próprio. Infelizmente em Portugal ainda achamos que boa literatura é bom vocabulário, frases barrocadas e construções sintáticas em talha dourada: uma história é para contar, e o estilo não é um trono pessoal, é uma forma de servir o leitor.

Há alguns escritores que se repetem nos projectos. Porquê?
Quisemos inovar nos nomes mas também manter alguns, por continuidade.

Há algum escritor que gostaria de ter tido nestes projectos em particular mas não conseguiu por este ou aquele motivo?
Há sempre: ou os que estão com demasiados projectos para responder a este, ou entre os que já estão a escrever as obras completas no outro lado das metáforas. Mas estas antologias têm um limite de autores e de espaço, igualmente.

Em relação ao «Contos Policiais», quais os números de vendas? Superou as vossas expectativas?
O tema foi falado, discutido, por causa da colectânea, e esperamos que, antes de qualquer outra questão, suscite novos leitores de policiais, e novos escritores de policiais.

Já estão a trabalhar o(s) próximo(s) tema(s)? Pode revelar qual(is) é(são)?
Sobre isso, sigilo absoluto. Estamos antes ansiosos de receber comentários e opiniões dos leitores sobre os vampiros, ou seja, das vítimas vampirizadas por estes contos.

 


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