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quarta-feira, 18 de Novembro de 2009 | 10:59
Maria Medeiros: «A potencialidade mística está adormecida»
Texto: Pedro Justino Alves

«Astrólogos, Cartomantes e Quiromantes», de Maria João Medeiros e editado pela Guerra & Paz, procura desvendar alguns dos mistérios de sete pessoas que desvendaram ao longo de um século vários mistérios do esotérico. De Madame Brouillard a Maya, são 100 anos de história do Oculto Português, retratados nesta obra de uma forma clara, simples mas bastante rica, incluindo inclusive episódios que fazem parte da nossa história, como o Regicídio ou o 25 de Abril. A autora defende no entanto que, apesar dos portugueses possuírem «uma singular potencialidade mística», «esta faculdade parece um pouco (para não dizer totalmente) adormecida».

Maria João Medeiros confessa nesta entrevista que deparou com algumas histórias fascinantes, mas a que mais a marcou foi protagonizada por Madame Brouillard.

«… no início da escrita do perfil, para melhor situar os leitores na época em que a biografada viveu, decidi ficcionar o episódio do regicídio ocorrido em Fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, como se tivesse sido um sonho, ou melhor, um pesadelo tido por Madame Brouillard. Dias depois, quando li uma entrevista dada por Brouillard, em 1910, fiquei espantada com o que ela afirmava: não só tivera mesmo uma visão premonitória do atentado, como tinha até avisado a corte portuguesa do perigo iminente!»

Esta é apenas uma de muitos factos que podemos encontrar em «Astrólogos, Cartomantes e Quiromantes», editado pela Guerra & Paz. Na verdade, o oculto sempre fascinou e continua a fascinar os portugueses e estes sete retratados são, na sua essência, os principais nomes do Esoterismo em Portugal. Apesar de considerar «os portugueses possuidores de uma singular potencialidade mística», Maria João Medeiros considera que «esta faculdade parece um pouco (para não dizer totalmente) adormecida». Talvez esta obra acorde os portugueses para poderem «enfrentar as questões que nos assustam e aprender a integrá-las no nosso caminho diário».

Foi complicado chegar a estes sete nomes?
Nada complicado. Pela magia do destino, foram os nomes que chegaram até mim.

Teve algum nome que lhe causou alguma surpresa em especial devido a sua história? Porque?
Em relação a Madame Brouillard, por exemplo, aconteceu-me isto: no início da escrita do perfil, para melhor situar os leitores na época em que a biografada viveu, decidi ficcionar o episódio do regicídio ocorrido em Fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, como se tivesse sido um sonho, ou melhor, um pesadelo tido por Madame Brouillard. Dias depois, quando li uma entrevista dada por Brouillard, em 1910, fiquei espantada com o que ela afirmava: não só tivera mesmo uma visão premonitória do atentado, como tinha até avisado a corte portuguesa do perigo iminente!
Mais do que ficar surpreendida, interpretei esta coincidência como um sinal de aprovação relativamente ao livro que eu estava a compor - e esta ideia deu-me mais força para prosseguir.

Qual a história que mais a impressionou?
Todas as histórias têm episódios impressionantes. Aliás, foi justamente por ter achado que cada uma destas biografias (e o livro é isso: um conjunto de biografias reunidas sob directrizes esotéricas) continha elementos de grande interesse histórico, espiritual e humano, que achei que tinha o dever de as dar a conhecer.
Mas, se por um lado cada um destes percursos de vida é tocado pelo maravilhoso e pelo fantástico, por outro lado interessou-me também revelar os aspectos menos divulgados das suas vidas (amores, sonhos, dificuldades), afinal tão semelhantes aos experimentados por qualquer outro português.

Paulo Cardoso e Maya são totalmente diferentes em termos de imagem, mas a verdade é que ambos usam hoje a comunicação como um meio para os seus objectivos. Os media são hoje fundamentais para as praticas esotéricas?
A essência de tudo o que é esotérico é reservada, interior, oculta para aqueles que ainda não estão preparados para se iniciarem nos seus mistérios: não deve ser espalhafatosa ou massificada, sob pena de se esvair pela contradição. Os media são fundamentais para multiplicar o apelo à reflexão sobre estes temas, para que depois cada um de nós trace o seu percurso próprio, auxiliado na prática esotérica pelas filosofias e pelos métodos que entenda seguir.
Sabemos que nem todos os praticantes respeitam esta norma; os meus biografados, apesar de diferentes no estilo, são todos, sem excepção, fidelíssimos ao princípio básico de manter discreto o que é secreto, sem deixar de cumprir o papel de intermediários entre nós e o oculto, derivando daqui a inevitável projecção mediática. Todos eles têm personalidades complexas e muito peculiares que os tornam personagens fascinantes: daí ser enorme o interesse que suscitam na maioria das pessoas e, consequentemente, nos media.

Imagino que teve maiores dificuldades para recolher o material sobre Madame Brouillard. Como foi o seu trabalho de pesquisa em relação a ela?
Nem por isso. Muito do material transitou do meu trabalho anterior, sobre o regicídio de 1908. Tive, necessariamente, que reformular a abordagem à investigação, lançando-me na pesquisa de novos dados mais relacionados com a temática esotérica (e não só política ou estatística, como no livro prévio). As fontes de há um século atrás são variadas e estão perfeitamente acessíveis a quem queira dedicar-lhes algum tempo e atenção - é só ir à Biblioteca Nacional, à Hemeroteca, à Torre do Tombo, etc.
Contei também com a inestimável ajuda de investigadores da terra natal da biografada - Vila Real - que me facultaram informações por eles já analisadas.

Considera Portugal um país esotérico?
Considero os portugueses possuidores de uma singular potencialidade mística. Hoje em dia, confesso que esta faculdade parece um pouco (para não dizer totalmente) adormecida. Será do ar do tempo, carregado de toneladas de tecnologia geradora de tão pouca sabedoria? Ou do total descalabro que atinge uma outra classe fundamental de líderes - os políticos?
E o que é que cada um de nós pode fazer para mudar tanta, tanta coisa que está mal? Daquilo que aprendi com estes nomes maiores do esoterismo nacional, creio que a solução até pode ser simples: precisamos elevar a dignidade dos exemplos que escolhemos seguir. Como? Talvez reinventando a noção e a prática do patriotismo - antes de sermos melhores pais, melhores profissionais, melhores portugueses talvez devêssemos, já amanhã, começar por tentar ser melhores pessoas. Em vez de desperdiçar o nosso limitado tempo de vida com questões apenas materiais e, no fim de contas, quase inúteis, cada indivíduo devia despertar aquilo que de mais nobre há no seu íntimo e, simplesmente, ouvindo o que lhe diz o fundo da alma, atrever-se a ser mais feliz.

Porque existe tanto receio até hoje com o esoterismo?
Na minha opinião, não há um receio específico relativo ao esoterismo. Houve, há e haverá sempre medo e preconceito em relação a todas as matérias que desconhecemos mas que, instintiva e inconscientemente, mexem connosco. Para dissipar este género de temor, só vejo um antídoto: enfrentar as questões que nos assustam e aprender a integrá-las no nosso caminho diário. Suponho que esta conquista se consegue através da busca de conhecimento, que não deve ser apenas racional mas que deverá também possuir uma vertente mais emotiva e espiritual. Pessoalmente, umas das vias que encontrei para lidar com o oculto foi escrever este livro.

A ideia que temos hoje é que o esotérico existe na nossa sociedade, mas a verdade é que há poucos a assumirem a sua utilização, a sua crença. Ainda temos uma sociedade recriminadora, apesar de vivermos em pleno século XXI?
Como na questão anterior, acho que as atitudes de recriminação são a estação final de quem embarca na onda da discriminação e do preconceito. Como podemos criticar seja o que for sem primeiro nos darmos ao trabalho de entender, de uma forma não meramente superficial, aquilo ou aqueles sobre quem nos pronunciamos? Quem é apressado a julgar e a condenar, usualmente padece de uma enorme falta de introspecção - e foi também para eles que se escreveu este livro... Por muito que haja uma certa tendência para tentar menosprezar e até ridicularizar estes temas e os seus praticantes, a verdade é que não conheço ninguém que, numa certa fase da sua vida, não tenha consultado ou seguido as indicações de um esoterista - e se não o fez por si mesmo, conhece com certeza alguém que o tenha feito -, seja familiar, amigo, colega ou conhecido. O tópico é incontornável porque o fascínio por estes mistérios é inerente à condição humana, do útero ao húmus de qualquer civilização, seja em que século for.

Quais as mudanças mais significativas nas práticas esotéricas nestes cem anos?
Não sendo eu esoterista e apenas investigadora, do meu estudo posso concluir que houve algumas mudanças formais e zero mudanças estruturais. As práticas sofreram as necessárias adaptações às exigências modernas - os meios de divulgação mais abrangentes, o uso das tecnologias computacionais para traçar mapas astrais, a possibilidade de fazer certas consultas on-line, a aposta em livros como este que agora publico, etc., etc. - mas o essencial desta filosofia, isto é, o coração da ciência do oculto, permanece imperturbável na sua demanda pelo aperfeiçoamento espiritual.

Basicamente, qual é a diferença do esoterismo de hoje e o esoterismo do passado? Acredita que éramos mais crentes no passado?
No esoterismo, o tempo não existe. O estudo e as práticas esotéricas permitem emocionantes viagens pelos tempos idos e pelos que hão-de vir e, desta aventura, traz-se invariavelmente a seguinte descoberta: toda a essência é imutável, o resto é espuma.
As biografias desvendadas neste livro não diferem muito das dos feiticeiros das nossas primeiras tribos, nem serão assim tão diversas das dos grandes ocultistas das próximas épocas. Nem nós, que a eles recorremos como guias quando nos sentimos perdidos, somos em nada diferentes de qualquer outro ser humano que alguma vez se tenha questionado sobre a sua existência e que tenha encontrado resposta e repouso na esperança de uma maior transcendência.

 


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